É uma pena ver como as pessoas estudam pouco, não conseguem perceber a beleza e profundidade dessa música. Vi tantos comentários absurdos sobre ela. Recomendo a todos que, ao verem essa música, leiam as obras de Kardec, Pietro Ubaldi, Léon Denis, Camille Flammarion, Mestre Eckart, Plotino, Espinosa, Matin Buber, Agostinho de Hipona, Santo Anselmo, Boécio... há outros, mas esses julgo cruciais e dentre eles destaco: Espinosa e Pietro Ubaldi.
Se quisermos falar com Deus e encontrarmos aquilo que esperávamos, tenhamos certeza: Não Estaremos falando Com Deus.
Divido essa música com aqueles que visitam este blog, por que, em minha opinião, é a mais bela música que há. E essa interpretação de Elis Regina, a capela, a deixa ainda mais profunda e bela.
Segue a letra da música e uma conversa (contida no álbum) com o próprio Gil sobre a letra.
Se
eu quiser falar com deus
Gilberto Gil
Se eu quiser falar com
Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a
paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos
receios
Tenho que esquecer a
data
Tenho que perder a
conta
Tenho que ter mãos
vazias
Ter a alma e o corpo
nus
Se eu quiser falar com
Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos
castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver
tristonho
Tenho que me achar
medonho
E apesar de um mal
tamanho
Alegrar meu coração
Se eu quiser falar com
Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos
céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar
em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava
encontrar
.......
"O
Roberto me pediu uma canção; do que eu vou falar? Ele é tão religioso - e se eu
quiser falar de Deus? E se eu quiser falar de falar com Deus?' Com esses
pensamentos e inquirições feitas durante uma sesta, dei início a uma exaustiva
enumeração: 'Se eu quiser falar com Deus, tenho que isso, que aquilo, que
aquilo outro'. E saí. À noite voltei e organizei as frases em três estrofes.
"O
que chegou a mim como tendo sido a reação dele, Roberto Carlos, foi que ele disse
que aquela não era a idéia de Deus que ele tem. 'O Deus desconhecido'. Ali, a
configuração não é a de um Deus nítido, com um perfil claro, definido. A canção
(mais filosofal, nesse sentido, do que religiosa) não é necessariamente sobre
um Deus, mas sobre a realidade última; o vazio de Deus: o vazio-Deus."
*
Esse
nada-Deus - Num dos encontros com Gil para as entrevistas que resultariam nas
edições de seus comentários aqui apresentadas, o coordenador deste livro lhe
entregou, a pedido do editor, Luis Schwarcz, um exemplar de um livro chamado
Uma História de Deus, escrito pela norte-americana Karen Armstrong. Na mesma
noite Gil começou a lê-lo, e na tarde seguinte leu para este interlocutor uma
longa passagem do mesmo que ele relacionou com o tema de Se Eu Quiser Falar com
Deus, que, por coincidência, tinha sido objeto das conversas no dia anterior.
Parte
do trecho dizia: "Sem dúvida, (Deus) parece estar desaparecendo da vida de
um número crescente de pessoas, sobretudo na Europa Ocidental. Elas falam de um
buraco em forma de Deus em suas consciências, onde antes Ele estava: onde antes
havia Deus, hoje há um buraco em forma de Deus." Segundo o compositor,
essas observações da autora imediatamente o fizeram pensar em Se Eu Quiser
Falar com Deus. "Alguma coisa desse Deus-buraco parece estar contida na
letra da canção", disse, querendo se referir especialmente ao trecho final
da letra.
*
O
pós possível - "A criação do efeito veio por impulso, instintivamente: a
sequência de 'nadas' (treze no total) insinuando sucessivas camadas de buraco,
criando a expectativa de algo e culminando com uma luz no fim (do túnel, da
estrada, da vida), quer dizer, deixando entrever, embutida na morte, a
possibilidade de realização de uma existência num plano diferente de tudo que
se possa imaginar, mas que de qualquer maneira se imagina existir; a
possibilidade de transmutação - com o desaparecimento do corpo físico, da
entidade psíquica que chamamos de alma, inconsciente, eu - para outra coisa,
outra forma de consciência de todo modo imprevisível, se não for mesmo
nada." BRWMB9701575
Muito bom!
ResponderExcluirMuito bom!
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