Diego
Alberto de Souza Martins
Há entre
os espíritas contemporâneos uma recorrente pauta sempre lançada àqueles
companheiros que estão em situação de destaque na doutrina espírita (difusores
espíritas nos mais diversos matizes). Constantemente essas pessoas são
questionadas em programas espíritas, em palestras, seminários, ou mesmo em
conversas informais, sobre o movimento espírita e sua relação com o
espiritismo.
De
fato, este é um assunto muito importante no panorama espírita brasileiro (não
vamos estender este assunto a outros países, não por discriminação ou algo
semelhante, mas por entendermos que a doutrina espírita possui integração
diferenciada entre os adeptos de outras terras por questões culturais, antropológicas,
filosóficas, dentre outras), e toma tonalidade de destaque por que as raízes
religiosas brasileiras fazem com que nossas religiões se desenvolvam de uma
forma muito peculiar.
Somos
um povo religioso – demasiadamente religioso no que concerne aos aspectos
tradicionais da religião – e, é importante ressaltar: falar de Doutrina
Espírita e Movimento Espírita não implica estarmos falando sobre mesma coisa;
há pontos cruciais acerca destes assuntos, principalmente o segundo, que
importa-nos ressaltar.
A
Doutrina Espírita, sustentada em seu tríplice aspecto, continua irretocável,
acompanhando sempre (como afirmara Kardec) o progresso do conhecimento humano e
trazendo contributos importantíssimos para essa nova era que se descerra aos
nossos olhos. Por vários motivos é possível perceber que Léon Denis foi muito
lúcido ao afirmar que “a doutrina
espírita não é a religião do futuro, mas o futuro das religiões.” Não temos
motivos para duvidar disso, é só olharmos a obras verdadeiramente espíritas para
constatarmos isso por nossas próprias pesquisas.
Entretanto,
não é essa a mesma perspectiva que podemos ter se observarmos o movimento
espírita, ou para melhor definir: se observarmos os movimentos espíritas em
nosso país. A forma como se comportam os vários espíritas em nossa terra, às
vezes, fazem-nos crer que há diferentes ‘espiritismos’ de norte a sul do
Brasil. E ao falarmos isso não estamos falando que questões meramente
metodológicas, de estudos sistematizados da doutrina, práticas da atividade
mediúnicas ou de caridade; ter diferentes métodos não é trair a doutrina, não é
ser contra o ensinamento dos espíritos, mesmo porque os espíritos nos ensinam
diferentes métodos para a prática do espiritismo, para que ele possa chegar às
mais diversas comunidades.
Não há e não poderia existir somente uma
a metodologia para a prática da doutrina espírita. Se assim agíssemos, como
quem diz: “somente este grupo ou aquele
grupo pratica o espiritismo da forma correta”, estaríamos entrando em contradição
com o que o próprio Kardec e os espíritos ensinam. Fazendo isso colocaríamos
determinado grupo como detentor da verdade e como único praticante da
verdadeira doutrina espírita. Lembremos que no capítulo XV de O Evangelho Segundo
o Espiritismo, Kardec diz:
Fora da verdade não
há salvação equivaleria ao Fora da Igreja não há salvação e seria igualmente
exclusivo, porquanto nenhuma seita existe que não pretenda ter o privilégio da
verdade. Que homem se pode vangloriar de a possuir integral, quando o âmbito
dos conhecimentos incessantemente se alarga e todos os dias se retificam as
idéias? A verdade absoluta é patrimônio unicamente de Espíritos da categoria
mais elevada e a Humanidade terrena não poderia pretender possuí-la, porque não
lhe é dado saber tudo. (OESE, cap. XV, item 9).
Não
existe um grupo detentor da verdade dos espíritos para melhor serem espíritas
que outros. Mas ao falarmos desses diversos ‘movimentos espíritas’ queremos
chamar a atenção para as diferenças entre grupos
espíritas (com diferentes metodologias, porém respeitando as premissas
principais do espiritismo) e grupos
pseudo-espíritas (com caracteres sincretistas, dogmáticos, transformando a
prática espírita em algo que mais se assemelha a igreja do império romano ou
protestante).
Quantos
companheiros de espiritismo mistificam e dogmatizam a doutrina espírita fazendo
práticas católico-pentecostal-espiritualistas em dissonância com aquilo que
estudamos na obra de Kardec e de seus colaboradores, do passado e de agora.
Os motivos
para essas distorções são vários, vão desde a falta de conhecimento acerca
doutrina pelos seus praticantes, até o surgimento daqueles falsos profetas dos
dois planos – como mostra o evangelho – que utilizam a doutrina para se auto-promover
e criar manifestações religiosas que atendem mais ao seu personalismo do que as
diretrizes dos espíritos da plêiade coordenada pelo Espírito de Verdade.
Não nos cabe apontar grupos ou práticas
que caracterizam essa distorção, contudo, é imperioso lembrar que só há uma
forma de evitarmos essas distorções no seio do movimento espírita, que
transformam grupos espíritas em ramificações espiritualistas como ocorrem na
tradição do protestantismo pentecostal no Brasil.
Apenas o estudo sério, sistemático a
começar pela obra kardequiana pode fazer com que o movimento espírita não se fragmente.
Então, vamos apontar alguns déficits, com relação ao estudo, apresentados entre
os integrantes dos vários grupos espíritas espalhados pelo Brasil.
Começaremos
com o alerta que o próprio Allan Kardec nos dá em seu diálogo com o Visitante
apresentado no livro O que é Espiritismo, onde ele (Allan Kardec) mais uma vez
ressalta o estudo. Assim ele se dirige ao interlocutor:
Como podereis
compreender essas experiências e, ainda mais, julgá-las, quando não estudastes
os princípios em que elas se baseiam?
Como apreciaríeis o
resultado, satisfatório ou não, de ensaios metalúrgicos, por exemplo, não
conhecendo a fundo a metalurgia?
Permiti-me dizer-vos,
senhor, que vosso projeto é absolutamente a mesma coisa que, não tendo estudado
a Matemática, nem a Astronomia, vos apresentásseis a um dos membros do Observatório,
dizendo-lhe:
“Senhor, quero
escrever um livro sobre Astronomia e provar que o vosso sistema é falso; mas,
como desconheço os menores rudimentos dessa ciência, deixai que, por uma ou duas
vezes, me sirva de vossa luneta; o que será suficiente para ficar sabendo tanto
quanto vós.”
Impossível
ser espírita sem o estudo, não há sentido em nos declararmos Espíritas sem
respeitar as premissas Amai-vos e Instruí-vos.
E, para relembrar o valor deste ensino do Espírito de Verdade, vale apontarmos
algumas questões (das várias que existem) em que precisamos refletir mais para
não criarmos movimentos espiritualistas ao invés de espíritas:
- · Achamos que o dever de ler a obra kardequiana é apenas dos líderes espíritas, dos palestrantes, instrutores etc. Quantas pessoas das casas espíritas, por exemplo, leram o evangelho da introdução ao fim? Quantas leram o Pentateuco? E para alarmar mais: quantas leram o Pentateuco, os outros livros que Kardec organizou e também as Revistas Espíritas?
- · Quantos adeptos do espiritismo leem, além de Allan Kardec (se o leem), Léon Denis, Gabriel Delanne, Camille Flammarion, o próprio Roustaing (este ainda é motivo de muitos tumultos dentro da doutrina) que são apresentados por Humberto de Campos no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho como os auxiliares de Kardec.*
- · Se há dúvidas sobre a mediunidade, temos a curiosidade de ler as obras de André Luis, de Manoel Philomeno de Miranda, Yvonne do Amaral Pereira? Até quando seremos espíritas de livros espiritualistas e de romances que têm por objetivo levar a doutrina aos simpatizantes e público leigo?
- · Até quanto vamos esperar com que os palestrantes, os presidentes de centro nos deem receita de espiritismo ao invés de irmos por nós mesmos pesquisar?
Há muitas outras coisas que poderiam ser
levantadas como questões para contribuirmos mais com o espiritismo e com a
organização do movimento espírita. Dessa forma evitaremos os charlatães, os
mistificadores dos dois planos e conseguiremos manter um único movimento
espírita que, embora tenha várias metodologias diferentes, respeite as máximas
morais da doutrina e os alicerces levantados por Kardec e sustentados pelo
próprio Cristo de Deus. E vale ainda ressaltar: o estudo por si só também não basta
para ser espírita; ele serve para além de sustentarmos o movimento espírita,
sermos melhores, amarmos mais. O estudo da doutrina serve para servirmos mais o
nosso próximo.
O Evangelho está repleto de indicativos
para sermos melhores espíritas e para reconhecermos quem são os que seguem verdadeiramente
O Consolador, por isso escolhemos mais uma passagem do evangelho organizado por
Allan Kardec para exaltarmos os sinais que demonstrarão os espíritas cristãos.
Pois, em verdade, é a Doutrina dos Espíritos que deve dar a última palavra em
assuntos tão importantes como este:
Pergunta. - Se,
entre os chamados para o Espiritismo, muitos se transviaram, quais os sinais
pelos quais reconheceremos os que se acham no bom caminho?
Resposta. -
Reconhecê-los-eis pelos princípios da verdadeira caridade que eles ensinarão e
praticarão. Reconhecê-los-eis pelo número de aflitos a que levem consolo; reconhecê-los-eis
pelo seu amor ao próximo, pela sua abnegação, pelo seu desinteresse pessoal;
reconhecê-los-eis, finalmente, pelo triunfo de seus princípios, porque Deus quer
o triunfo de Sua lei; os que seguem Sua lei, esses são os escolhidos e Ele lhes
dará a vitória; mas Ele destruirá aqueles que falseiam o espírito dessa lei e
fazem dela degrau para contentar sua vaidade e sua ambição. - Erasto, anjo
da guarda do médium. (Paris, 1863.) (OESE, Cap. XX, item 4).
* "Foi assim que Allan Kardec, a 3 de outubro de 1804,
via a luz da atmosfera terrestre, na cidade de Lião. Segundo os planos de
trabalho do mundo invisível, o grande missionário, no seu maravilhoso esforço
de síntese, contaria com a cooperação de uma plêiade de auxiliares da sua obra,
designados particularmente para coadjuvá-lo, nas individualidades de João Batista
Roustaing, que organizaria o trabalho da fé; de Léon Denis, que efetuaria o desdobramento
filosófico; de Gabriel Delanne, que apresentaria a estrada científica e de
Camille Flammarion, que abriria a cortina dos mundos, desenhando as maravilhas
das paisagens celestes, cooperando assim na codificação kardequiana no Velho
Mundo e dilatando-a com os necessários complementos." (Humberto de Campos/Chico
Xavier. Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho)

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