Uma microscópica visão sobre o Espiritismo

A Doutrina Espírita não tem o caráter isolado de uma Religião, de uma Filosofia ou de uma Ciência, pois ela é, simultaneamente, essa tríade: Filosofia, Ciência e Religião. Se tirarmos um desses elementos da Doutrina dos Espíritos (como a chamava Léon Denis), já não há mais Espiritismo. E ela - é importante ressaltar - não é uma invenção do senhor Allan Kardec, pois tem a característica da impessoalidade. Ele foi o Codificador. Nas palavras dele:

_______
"Há entre o Espiritismo e outros sistemas filosóficos esta diferença capital; que estes são todos obra de homens, mais ou menos esclarecidos, ao passo que, naquele que me atribuís, eu não tenho o mérito da invenção de um só princípio.
Diz-se: a filosofia de Platão, de Descartes, de Leibnitz; nunca se poderá dizer: a doutrina de Allan Kardec; e isto, felizmente, pois que valor pode ter um nome em assunto de tamanha gravidade?
O Espiritismo tem auxiliares de maior preponderância, ao lado dos quais somos simples átomos." (Allan Kardec, O que é o Espiritismo)."
_______

Este blog visa contribuir com as reflexões sobre a Doutrina Espírita com textos meus e de autores que admiro. Não pretendo com isso exaltar minha personalidade, embora eu vá publicar aqui as datas de algumas palestras minhas (isto por conta de pedido de amigos), mas também de outros colaboradores do espiritismo e de eventos espíritas em Goiânia e fora daqui.
Aqueles que visitarem, sejam bem vindos!


"A maior caridade que podemos fazer pela doutrina espírita é sua divulgação." -Emmanuel-

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Espiritismo e Movimento Espírita


Diego Alberto de Souza Martins



            Há entre os espíritas contemporâneos uma recorrente pauta sempre lançada àqueles companheiros que estão em situação de destaque na doutrina espírita (difusores espíritas nos mais diversos matizes). Constantemente essas pessoas são questionadas em programas espíritas, em palestras, seminários, ou mesmo em conversas informais, sobre o movimento espírita e sua relação com o espiritismo.
            De fato, este é um assunto muito importante no panorama espírita brasileiro (não vamos estender este assunto a outros países, não por discriminação ou algo semelhante, mas por entendermos que a doutrina espírita possui integração diferenciada entre os adeptos de outras terras por questões culturais, antropológicas, filosóficas, dentre outras), e toma tonalidade de destaque por que as raízes religiosas brasileiras fazem com que nossas religiões se desenvolvam de uma forma muito peculiar.
            Somos um povo religioso – demasiadamente religioso no que concerne aos aspectos tradicionais da religião – e, é importante ressaltar: falar de Doutrina Espírita e Movimento Espírita não implica estarmos falando sobre mesma coisa; há pontos cruciais acerca destes assuntos, principalmente o segundo, que importa-nos ressaltar.
            A Doutrina Espírita, sustentada em seu tríplice aspecto, continua irretocável, acompanhando sempre (como afirmara Kardec) o progresso do conhecimento humano e trazendo contributos importantíssimos para essa nova era que se descerra aos nossos olhos. Por vários motivos é possível perceber que Léon Denis foi muito lúcido ao afirmar que “a doutrina espírita não é a religião do futuro, mas o futuro das religiões.” Não temos motivos para duvidar disso, é só olharmos a obras verdadeiramente espíritas para constatarmos isso por nossas próprias pesquisas.
            Entretanto, não é essa a mesma perspectiva que podemos ter se observarmos o movimento espírita, ou para melhor definir: se observarmos os movimentos espíritas em nosso país. A forma como se comportam os vários espíritas em nossa terra, às vezes, fazem-nos crer que há diferentes ‘espiritismos’ de norte a sul do Brasil. E ao falarmos isso não estamos falando que questões meramente metodológicas, de estudos sistematizados da doutrina, práticas da atividade mediúnicas ou de caridade; ter diferentes métodos não é trair a doutrina, não é ser contra o ensinamento dos espíritos, mesmo porque os espíritos nos ensinam diferentes métodos para a prática do espiritismo, para que ele possa chegar às mais diversas comunidades.
Não há e não poderia existir somente uma a metodologia para a prática da doutrina espírita. Se assim agíssemos, como quem diz: “somente este grupo ou aquele grupo pratica o espiritismo da forma correta”, estaríamos entrando em contradição com o que o próprio Kardec e os espíritos ensinam. Fazendo isso colocaríamos determinado grupo como detentor da verdade e como único praticante da verdadeira doutrina espírita. Lembremos que no capítulo XV de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec diz:

Fora da verdade não há salvação equivaleria ao Fora da Igreja não há salvação e seria igualmente exclusivo, porquanto nenhuma seita existe que não pretenda ter o privilégio da verdade. Que homem se pode vangloriar de a possuir integral, quando o âmbito dos conhecimentos incessantemente se alarga e todos os dias se retificam as idéias? A verdade absoluta é patrimônio unicamente de Espíritos da categoria mais elevada e a Humanidade terrena não poderia pretender possuí-la, porque não lhe é dado saber tudo. (OESE, cap. XV, item 9).

            Não existe um grupo detentor da verdade dos espíritos para melhor serem espíritas que outros. Mas ao falarmos desses diversos ‘movimentos espíritas’ queremos chamar a atenção para as diferenças entre grupos espíritas (com diferentes metodologias, porém respeitando as premissas principais do espiritismo) e grupos pseudo-espíritas (com caracteres sincretistas, dogmáticos, transformando a prática espírita em algo que mais se assemelha a igreja do império romano ou protestante).
            Quantos companheiros de espiritismo mistificam e dogmatizam a doutrina espírita fazendo práticas católico-pentecostal-espiritualistas em dissonância com aquilo que estudamos na obra de Kardec e de seus colaboradores, do passado e de agora.
            Os motivos para essas distorções são vários, vão desde a falta de conhecimento acerca doutrina pelos seus praticantes, até o surgimento daqueles falsos profetas dos dois planos – como mostra o evangelho – que utilizam a doutrina para se auto-promover e criar manifestações religiosas que atendem mais ao seu personalismo do que as diretrizes dos espíritos da plêiade coordenada pelo Espírito de Verdade.
Não nos cabe apontar grupos ou práticas que caracterizam essa distorção, contudo, é imperioso lembrar que só há uma forma de evitarmos essas distorções no seio do movimento espírita, que transformam grupos espíritas em ramificações espiritualistas como ocorrem na tradição do protestantismo pentecostal no Brasil.
Apenas o estudo sério, sistemático a começar pela obra kardequiana pode fazer com que o movimento espírita não se fragmente. Então, vamos apontar alguns déficits, com relação ao estudo, apresentados entre os integrantes dos vários grupos espíritas espalhados pelo Brasil.
            Começaremos com o alerta que o próprio Allan Kardec nos dá em seu diálogo com o Visitante apresentado no livro O que é Espiritismo, onde ele (Allan Kardec) mais uma vez ressalta o estudo. Assim ele se dirige ao interlocutor:

Como podereis compreender essas experiências e, ainda mais, julgá-las, quando não estudastes os princípios em que elas se baseiam?
Como apreciaríeis o resultado, satisfatório ou não, de ensaios metalúrgicos, por exemplo, não conhecendo a fundo a metalurgia?
Permiti-me dizer-vos, senhor, que vosso projeto é absolutamente a mesma coisa que, não tendo estudado a Matemática, nem a Astronomia, vos apresentásseis a um dos membros do Observatório, dizendo-lhe:
“Senhor, quero escrever um livro sobre Astronomia e provar que o vosso sistema é falso; mas, como desconheço os menores rudimentos dessa ciência, deixai que, por uma ou duas vezes, me sirva de vossa luneta; o que será suficiente para ficar sabendo tanto quanto vós.”

            Impossível ser espírita sem o estudo, não há sentido em nos declararmos Espíritas sem respeitar as premissas Amai-vos e Instruí-vos. E, para relembrar o valor deste ensino do Espírito de Verdade, vale apontarmos algumas questões (das várias que existem) em que precisamos refletir mais para não criarmos movimentos espiritualistas ao invés de espíritas:
  • ·         Achamos que o dever de ler a obra kardequiana é apenas dos líderes espíritas, dos palestrantes, instrutores etc. Quantas pessoas das casas espíritas, por exemplo, leram o evangelho da introdução ao fim? Quantas leram o Pentateuco? E para alarmar mais: quantas leram o Pentateuco, os outros livros que Kardec organizou e também as Revistas Espíritas?
  • ·     Quantos adeptos do espiritismo leem, além de Allan Kardec (se o leem), Léon Denis, Gabriel Delanne, Camille Flammarion, o próprio Roustaing (este ainda é motivo de muitos tumultos dentro da doutrina) que são apresentados por Humberto de Campos no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho como os auxiliares de Kardec.*
  • ·    Se há dúvidas sobre a mediunidade, temos a curiosidade de ler as obras de André Luis, de Manoel Philomeno de Miranda, Yvonne do Amaral Pereira? Até quando seremos espíritas de livros espiritualistas e de romances que têm por objetivo levar a doutrina aos simpatizantes e público leigo?
  • ·      Até quanto vamos esperar com que os palestrantes, os presidentes de centro nos deem receita de espiritismo ao invés de irmos por nós mesmos pesquisar?

Há muitas outras coisas que poderiam ser levantadas como questões para contribuirmos mais com o espiritismo e com a organização do movimento espírita. Dessa forma evitaremos os charlatães, os mistificadores dos dois planos e conseguiremos manter um único movimento espírita que, embora tenha várias metodologias diferentes, respeite as máximas morais da doutrina e os alicerces levantados por Kardec e sustentados pelo próprio Cristo de Deus. E vale ainda ressaltar: o estudo por si só também não basta para ser espírita; ele serve para além de sustentarmos o movimento espírita, sermos melhores, amarmos mais. O estudo da doutrina serve para servirmos mais o nosso próximo.
O Evangelho está repleto de indicativos para sermos melhores espíritas e para reconhecermos quem são os que seguem verdadeiramente O Consolador, por isso escolhemos mais uma passagem do evangelho organizado por Allan Kardec para exaltarmos os sinais que demonstrarão os espíritas cristãos. Pois, em verdade, é a Doutrina dos Espíritos que deve dar a última palavra em assuntos tão importantes como este:

Pergunta. - Se, entre os chamados para o Espiritismo, muitos se transviaram, quais os sinais pelos quais reconheceremos os que se acham no bom caminho?
Resposta. - Reconhecê-los-eis pelos princípios da verdadeira caridade que eles ensinarão e praticarão. Reconhecê-los-eis pelo número de aflitos a que levem consolo; reconhecê-los-eis pelo seu amor ao próximo, pela sua abnegação, pelo seu desinteresse pessoal; reconhecê-los-eis, finalmente, pelo triunfo de seus princípios, porque Deus quer o triunfo de Sua lei; os que seguem Sua lei, esses são os escolhidos e Ele lhes dará a vitória; mas Ele destruirá aqueles que falseiam o espírito dessa lei e fazem dela degrau para contentar sua vaidade e sua ambição. - Erasto, anjo da guarda do médium. (Paris, 1863.) (OESE, Cap. XX, item 4).





                                  
* "Foi assim que Allan Kardec, a 3 de outubro de 1804, via a luz da atmosfera terrestre, na cidade de Lião. Segundo os planos de trabalho do mundo invisível, o grande missionário, no seu maravilhoso esforço de síntese, contaria com a cooperação de uma plêiade de auxiliares da sua obra, designados particularmente para coadjuvá-lo, nas individualidades de João Batista Roustaing, que organizaria o trabalho da fé; de Léon Denis, que efetuaria o desdobramento filosófico; de Gabriel Delanne, que apresentaria a estrada científica e de Camille Flammarion, que abriria a cortina dos mundos, desenhando as maravilhas das paisagens celestes, cooperando assim na codificação kardequiana no Velho Mundo e dilatando-a com os necessários complementos." (Humberto de Campos/Chico Xavier. Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho)

Nenhum comentário:

Postar um comentário