Uma microscópica visão sobre o Espiritismo

A Doutrina Espírita não tem o caráter isolado de uma Religião, de uma Filosofia ou de uma Ciência, pois ela é, simultaneamente, essa tríade: Filosofia, Ciência e Religião. Se tirarmos um desses elementos da Doutrina dos Espíritos (como a chamava Léon Denis), já não há mais Espiritismo. E ela - é importante ressaltar - não é uma invenção do senhor Allan Kardec, pois tem a característica da impessoalidade. Ele foi o Codificador. Nas palavras dele:

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"Há entre o Espiritismo e outros sistemas filosóficos esta diferença capital; que estes são todos obra de homens, mais ou menos esclarecidos, ao passo que, naquele que me atribuís, eu não tenho o mérito da invenção de um só princípio.
Diz-se: a filosofia de Platão, de Descartes, de Leibnitz; nunca se poderá dizer: a doutrina de Allan Kardec; e isto, felizmente, pois que valor pode ter um nome em assunto de tamanha gravidade?
O Espiritismo tem auxiliares de maior preponderância, ao lado dos quais somos simples átomos." (Allan Kardec, O que é o Espiritismo)."
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Este blog visa contribuir com as reflexões sobre a Doutrina Espírita com textos meus e de autores que admiro. Não pretendo com isso exaltar minha personalidade, embora eu vá publicar aqui as datas de algumas palestras minhas (isto por conta de pedido de amigos), mas também de outros colaboradores do espiritismo e de eventos espíritas em Goiânia e fora daqui.
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"A maior caridade que podemos fazer pela doutrina espírita é sua divulgação." -Emmanuel-

domingo, 4 de novembro de 2012

É o espiritismo uma religião?

Diego Alberto de Souza Martins

Existem certas questões surgidas em sala de aula, que embora não se refiram diretamente ao assunto com qual você está trabalhando, merecem nossa atenção e explanação para o bem do espiritismo.
Há poucos dias eu estava dando um curso em um dos vários congressos espíritas que existem o nosso país quando fui interpelado por uma companheira espírita que disse: “Olha, me responde uma coisa. O espiritismo é uma religião? – ela mesma interrompeu a pergunta e esclareceu o porquê de sua pergunta – sabe por que estou te perguntando isso? É que o presidente do meu centro foi veemente em uma reunião em dizer que a doutrina espírita não é uma religião. Ele disse que o espiritismo é uma ciência e que não podemos vê-la como religião.”
A priori eu teria todos os argumentos para ressaltar o grande equivoco deste companheiro e criaria um problema na casa espírita em que essas duas pessoas freqüentavam se eu fosse agir com a paixão de tentar provar que este presidente estava errado.
Sorte temos em ser guiados por boas almas que tanto nos auxiliam, pois se confiássemos apenas em nossos parcos conhecimentos, já teríamos destruído o movimento espírita. Logo me pus a refletir sobre a questão e disse à amiga que ali estava para analisarmos a questão com cautela, buscando perceber o que os espíritos e Kardec nos ensinam.
Após este evento fiquei reflexivo durante os dias em que se seguiram. Me fiz determinadas perguntas de direcionamento, tais como:
O que levou este senhor a pensar assim?
Ele está completamente errado mesmo?
Quando ele diz que espiritismo não é religião sobre que aspecto de religião ele fala?
Essas são questões muito importantes para seguirmos com o raciocínio que proponho. Olhando a perspectiva deste companheiro espírita, somente um elemento é possível negar pontualmente sem precisar me alongar muito numa explicação dessa posição negativa que me coloco. (Entretanto, lembro durante o discorrer deste texto o leitor perceberá o porquê deste equívoco). Nego essa perspectiva já de inicio porque ela é desprovida de fundamento. Ao dizer que a doutrina espírita é uma ciência somente, há grande distorção, a doutrina espírita não tem nenhuma característica que a isole a um campo apenas do conhecimento humano, seu caráter revelatório a faz universalista e, por conseguinte, capaz de se caracterizar por todas as formas do conhecimento humano. Em resumo: o espiritismo pode tanto ser ciência, quanto filosofia, ou religião. Então a definição apresentada como sendo o espiritismo uma ciência apresenta-se tão sem fundamento quando ao caracterizarmo-la como uma filosofia, ou como religião em seus caracteres isolados.
As raízes da história da doutrina espírita podem nos auxiliar a compreender a visão de que a doutrina espírita é apenas ciência. Vários grandes espíritas, no inicio da revelação quiseram separá-la de qualquer caráter religioso e apenas exaltaram a ciência espírita, grandes homens foram categóricos nessa perspectiva, dentre eles queremos destacar os nomes de Gabriel Delanne e Camille Flammarion, o segundo, principalmente, apresentou muitos problemas ao ver pessoas do meio espírita definindo-a como religião ele chega a dizer no discurso proferido junto ao túmulo de Kardec:

Porque, meus Senhores, o Espiritismo não é uma religião, mas uma ciência, da qual apenas conhecemos o abecê. Passou o tempo dos dogmas. A Natureza abrange o Universo, e o próprio Deus, feito outrora à imagem do homem, a moderna Metafísica não o pode considerar senão como um espírito na Natureza.

            Sempre existiram, na Europa principalmente, aqueles que têm essa mesma visão cientifica da doutrina. No próprio Brasil todos nos lembramos dos relatos históricos sobre o Pacto Áureo.
            Algumas vezes o próprio Allan Kardec enfatiza o caráter cientifico do espiritismo: “O Espiritismo é a ciência nova que vem revelar aos homens, por meio de provas irrecusáveis, a existência e a natureza do mundo espiritual e as suas relações com o mundo corpóreo.” O que pode auxiliar essa impressão unilateral dos companheiros espíritas. Porém, serve a ressalva de que Kardec sabia do tríplice aspecto do consolador prometido e em outras passagens, tanto Kardec quanto os espíritos ressaltam as características de religião que a Doutrina Espírita tem, uma religião legitimamente cristã. Vejamos:

Reconhecer-se-á em breve que o Espiritismo ressalta a cada passo do texto mesmo das Escrituras sagradas. Os Espíritos, portanto, não vêm subverter a religião, como alguns o pretendem. Vêm, ao contrário, confirmá-la, sancioná-la por provas irrecusáveis. [...] Eis por que, daqui a algum tempo, muito maior será do que é hoje o número de pessoas sinceramente religiosas e crentes. (OLE, São Luis. perg. 1010)
O Espiritismo é forte porque assenta sobre as próprias bases da religião; Deus, a alma, as penas e as recompensas futuras; sobretudo, porque mostra que essas penas e recompensas são corolários naturais da vida terrestre e, ainda, porque, no quadro que apresenta do futuro, nada há que a razão mais exigente possa recusar.(OLE, Allan Kardec. Conclusão)

O Espiritismo diz: "Não venho destruir a lei cristã, mas dar-lhe execução." Nada ensina em contrário ao que ensinou o Cristo; mas, desenvolve, completa e explica, em termos claros e para toda gente, o que foi dito apenas sob forma alegórica. Vem cumprir, nos tempos preditos, o que o Cristo anunciou e preparar a realização das coisas futuras. Ele é, pois, obra do Cristo, que preside, conforme igualmente o anunciou, à regeneração que se opera e prepara o reino de Deus na Terra. Moisés abriu o caminho; Jesus continuou a obra; o Espiritismo a concluirá. (OESE, Um Espírito israelita. Mulhouse, 1861).

[...] o Espiritismo realiza o que Jesus disse do Consolador prometido: conhecimento das coisas, fazendo que o homem saiba donde vem, para onde vai e por que está na Terra; atrai para os verdadeiros princípios da lei de Deus e consola pela fé e pela esperança. O Espiritismo, como o fez antigamente a minha palavra, tem de lembrar aos incrédulos que acima deles reina a imutável verdade: o Deus bom, o Deus grande, que faz germinem as plantas e se levantem as ondas. (OESE, O Espírito de Verdade)

O Espiritismo é chamado a desempenhar imenso papel na Terra. Ele reformará a legislação ainda tão freqüentemente contrária às leis divinas; retificará os erros da História; restaurará a religião do Cristo, que se tornou, nas mãos dos padres, objeto de comércio e de tráfico vil [...]. (A Gênese, Marselha; médium: Sr. Jorge Genouillat.. Comunicação transmitida pelo Sr. Brion Dorgeval, 15 de abril de 1860).


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            Parece claro nestes fragmentos que o grupo de espíritos, guiados pelo Espírito de Verdade, não nega o caráter religioso do Espiritismo. Entretanto, resta-nos esclarecer mais; existem aspectos que realmente fazem da doutrina espírita uma não-religião efetivamente. Isto depende da perspectiva com a qual falamos de religião.
            O Espiritismo não é religião na medida em que o Cristianismo (aquele primitivo, das reuniões dos apóstolos com Jesus) não é também uma religião. Quando falamos da igreja judaico-cristã-ocidental com suas variantes, até mesmo no protestantismo – tanto o protestantismo, quanto o pentecostalismo ou neopentecostalismo brasileiros têm características sincretistas, suas práticas e dogmas se repetem, se misturam – com seus costumes e rituais não estamos falando de religiões com o caráter religioso do espiritismo. Se falarmos da religião tradicional, de fato, temos de negar que a doutrina espírita é uma religião.
            Esta doutrina é religião (do latim religare, ligare: ligação, re-ligação) no sentido legítimo de uma religião, no sentido de nos ligarmos a Deus, de voltarmos como Filhos Pródigos à casa do Pai. Mas vamos além, nosso objetivo não é só mostrar que a doutrina é uma religião legítima, pois ela não é apenas uma religião. Ela é uma Ciência, uma Filosofia, uma Religião. O espiritismo é simultaneamente essas três formas de conhecimento do mundo. Se assim não for, não há espiritismo. Estaremos falando de qualquer coisa sem estes três aspectos, mas não estaremos falando do Consolador Prometido:

O Espiritismo não tem o caráter isolado de uma filosofia, de uma ciência ou de uma religião, porque é, ao mesmo tempo, religião, filosofia e ciência. É simultaneamente revelação divina e obra de cooperação dos Espíritos humanos desencarnados e encarnados. Tem a característica singular de ser impessoal, complementar e progressivo; primeiro, por não ser fruto da revelação de um só Espírito, nem o trabalho de um só homem; segundo, por ser a complementação natural, expressa e lógica das duas primeiras Grandes Revelações Divinas (a de Moisés e a do Cristo); terceiro, porque, como bem disse Kardec, ele jamais dirá a última palavra. É ciência, porque investiga, experimenta, comprova, sistematiza e conceitua lei, fatos, forças e fenômenos da vida, da natureza, dos pensamentos e dos sentimentos humanos. É filosofia, porque cogita, induz e deduz idéias e fatos lógicos sobre as causas primeiras e seus efeitos naturais; generaliza e sintetiza, reflete, aprofunda e explica; estuda, discerne e define motivos e conseqüências, comos e porquês de fenômenos relativos à vida e à morte. É religião, porque de suas constatações científicas e de suas conclusões filosóficas resulta o reconhecimento humano da Paternidade Divina e da irmandade universal de todos os seres da Criação, estabelecendo, desse modo, o culto natural do amor a Deus e ao próximo. (Universo e Vida, Áureo)

            Não cabe unilateralidade na visão espírita. Se não estudarmos, compreendermos nos sujeitaremos a vários erros e a repetição destes erros. Erros que desagregam, distorcem e prejudicam o desenvolvimento, no íntimo de cada adepto, dessa doutrina de amor, luz e esclarecimento
            Este exemplo de discussão, ocorrido naquela casa espírita, ressalta o problema da falta de estudo em que muitos companheiros de seara se encontram. Não há verdadeiro espírita sem se colocar na posição de aprendiz, estudante. Que fique para nós a reflexão da necessidade de estudar as obras espíritas e a história do espiritismo com mais afinco. Pois o estudo e a prática do amor, em doutrina espírita, não são atitudes superiores que temos, são nosso dever, assim como o evangelho nos diz. E a escolha de permanecer na ignorância ou buscar esclarecer-se depende única e exclusivamente de cada um, é atitude intransferível. É bom pensarmos mais sobre isto.


                                  
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

NOVAES, Adenáuer M. F. de. Conhecendo o Espiritismo. 1ª ed. Bahia: Lar Harmonia, 1998.
                                               . Psicologia do Evangelho. 2ª ed. Bahia: Lar Harmonia, 1999.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 3ª ed. Rio de Janeiro: FEB Editora, 2008.

                                   . O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 3ª ed. Rio de Janeiro: FEB Editora, 1996.
                                   . A Gênese. Trad. Guillon Ribeiro. 36ª ed. Rio de Janeiro: FEB Editora, 1995.
ÁUREO. Psic. Hernani T. Sant’ Anna. Universo e Vida. 5ª ed. Rio de Janeiro: FEB Editora, 1998.

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