Diego Alberto de Souza Martins
Existem
certas questões surgidas em sala de aula, que embora não se refiram diretamente
ao assunto com qual você está trabalhando, merecem nossa atenção e explanação
para o bem do espiritismo.
Há
poucos dias eu estava dando um curso em um dos vários congressos espíritas que
existem o nosso país quando fui interpelado por uma companheira espírita que
disse: “Olha, me responde uma coisa. O espiritismo é uma religião? – ela mesma
interrompeu a pergunta e esclareceu o porquê de sua pergunta – sabe por que
estou te perguntando isso? É que o presidente do meu centro foi veemente em uma
reunião em dizer que a doutrina espírita não é uma religião. Ele disse que o
espiritismo é uma ciência e que não podemos vê-la como religião.”
A
priori eu teria todos os argumentos para ressaltar o grande equivoco deste
companheiro e criaria um problema na casa espírita em que essas duas pessoas
freqüentavam se eu fosse agir com a paixão de tentar provar que este presidente
estava errado.
Sorte
temos em ser guiados por boas almas que tanto nos auxiliam, pois se
confiássemos apenas em nossos parcos conhecimentos, já teríamos destruído o
movimento espírita. Logo me pus a refletir sobre a questão e disse à amiga que
ali estava para analisarmos a questão com cautela, buscando perceber o que os
espíritos e Kardec nos ensinam.
Após
este evento fiquei reflexivo durante os dias em que se seguiram. Me fiz
determinadas perguntas de direcionamento, tais como:
O
que levou este senhor a pensar assim?
Ele
está completamente errado mesmo?
Quando
ele diz que espiritismo não é religião sobre que aspecto de religião ele fala?
Essas
são questões muito importantes para seguirmos com o raciocínio que proponho.
Olhando a perspectiva deste companheiro espírita, somente um elemento é
possível negar pontualmente sem precisar me alongar muito numa explicação dessa
posição negativa que me coloco. (Entretanto, lembro durante o discorrer deste
texto o leitor perceberá o porquê deste equívoco). Nego essa perspectiva já de
inicio porque ela é desprovida de fundamento. Ao dizer que a doutrina espírita é uma ciência somente,
há grande distorção, a doutrina espírita não tem nenhuma característica que a
isole a um campo apenas do conhecimento humano, seu caráter revelatório a faz
universalista e, por conseguinte, capaz de se caracterizar por todas as formas
do conhecimento humano. Em resumo: o espiritismo pode tanto ser ciência, quanto
filosofia, ou religião. Então a definição apresentada como sendo o espiritismo
uma ciência apresenta-se tão sem fundamento quando ao caracterizarmo-la como
uma filosofia, ou como religião em seus caracteres isolados.
As
raízes da história da doutrina espírita podem nos auxiliar a compreender a
visão de que a doutrina espírita é apenas ciência. Vários grandes espíritas, no
inicio da revelação quiseram separá-la de qualquer caráter religioso e apenas
exaltaram a ciência espírita, grandes homens foram categóricos nessa
perspectiva, dentre eles queremos destacar os nomes de Gabriel Delanne e
Camille Flammarion, o segundo, principalmente, apresentou muitos problemas ao
ver pessoas do meio espírita definindo-a como religião ele chega a dizer no
discurso proferido junto ao túmulo de Kardec:
Porque,
meus Senhores, o Espiritismo não é uma religião, mas uma ciência, da qual
apenas conhecemos o abecê. Passou o tempo dos dogmas. A Natureza abrange o
Universo, e o próprio Deus, feito outrora à imagem do homem, a moderna
Metafísica não o pode considerar senão como um espírito na Natureza.
Sempre existiram, na Europa
principalmente, aqueles que têm essa mesma visão cientifica da doutrina. No
próprio Brasil todos nos lembramos dos relatos históricos sobre o Pacto Áureo.
Algumas vezes o próprio Allan Kardec
enfatiza o caráter cientifico do espiritismo: “O Espiritismo é a ciência nova que vem revelar aos homens, por meio de
provas irrecusáveis, a existência e a natureza do mundo espiritual e as suas
relações com o mundo corpóreo.” O que pode auxiliar essa impressão
unilateral dos companheiros espíritas. Porém, serve a ressalva de que Kardec
sabia do tríplice aspecto do consolador prometido e em outras passagens, tanto
Kardec quanto os espíritos ressaltam as características de religião que a
Doutrina Espírita tem, uma religião legitimamente cristã. Vejamos:
Reconhecer-se-á em breve que o Espiritismo ressalta
a cada passo do texto mesmo das Escrituras sagradas. Os Espíritos, portanto,
não vêm subverter a religião, como alguns o pretendem. Vêm, ao contrário,
confirmá-la, sancioná-la por provas irrecusáveis. [...] Eis por que, daqui a
algum tempo, muito maior será do que é hoje o número de pessoas sinceramente
religiosas e crentes. (OLE, São Luis. perg. 1010)
O Espiritismo
é forte porque assenta sobre as próprias bases da religião; Deus, a alma, as
penas e as recompensas futuras; sobretudo, porque mostra que essas penas e recompensas
são corolários naturais da vida terrestre e, ainda, porque, no quadro que apresenta
do futuro, nada há que a razão mais exigente possa recusar.(OLE, Allan Kardec.
Conclusão)
O Espiritismo
diz: "Não venho destruir a lei cristã, mas dar-lhe execução." Nada
ensina em contrário ao que ensinou o Cristo; mas, desenvolve, completa e
explica, em termos claros e para toda gente, o que foi dito apenas sob forma
alegórica. Vem cumprir, nos tempos preditos, o que o Cristo anunciou e preparar
a realização das coisas futuras. Ele é, pois, obra do Cristo, que preside,
conforme igualmente o anunciou, à regeneração que se opera e prepara o reino de
Deus na Terra. Moisés abriu o caminho; Jesus continuou a obra; o Espiritismo a
concluirá. (OESE, Um Espírito israelita. Mulhouse, 1861).
[...] o Espiritismo realiza o que Jesus
disse do Consolador prometido: conhecimento das coisas, fazendo que o homem
saiba donde vem, para onde vai e por que está na Terra; atrai para os
verdadeiros princípios da lei de Deus e consola pela fé e pela esperança. O
Espiritismo, como o fez antigamente a minha palavra, tem de lembrar aos
incrédulos que acima deles reina a imutável verdade: o Deus bom, o Deus grande,
que faz germinem as plantas e se levantem as ondas. (OESE, O Espírito de
Verdade)
O Espiritismo é chamado a
desempenhar imenso papel na Terra. Ele reformará a legislação ainda tão
freqüentemente contrária às leis divinas; retificará os erros da História;
restaurará a religião do Cristo, que se tornou, nas mãos dos padres, objeto de
comércio e de tráfico vil [...]. (A Gênese, Marselha; médium: Sr. Jorge
Genouillat.. Comunicação transmitida pelo Sr. Brion Dorgeval, 15 de abril
de 1860).
*
Parece claro nestes fragmentos que o
grupo de espíritos, guiados pelo Espírito de Verdade, não nega o caráter religioso
do Espiritismo. Entretanto, resta-nos esclarecer mais; existem aspectos que
realmente fazem da doutrina espírita uma não-religião efetivamente. Isto
depende da perspectiva com a qual falamos de religião.
O Espiritismo não é religião na
medida em que o Cristianismo (aquele primitivo, das reuniões dos apóstolos com
Jesus) não é também uma religião. Quando falamos da igreja
judaico-cristã-ocidental com suas variantes, até mesmo no protestantismo – tanto
o protestantismo, quanto o pentecostalismo ou neopentecostalismo brasileiros
têm características sincretistas, suas práticas e dogmas se repetem, se
misturam – com seus costumes e rituais não estamos falando de religiões com o caráter religioso do
espiritismo. Se falarmos da religião tradicional, de fato, temos de negar que a
doutrina espírita é uma religião.
Esta doutrina é religião (do latim religare, ligare: ligação, re-ligação)
no sentido legítimo de uma religião, no sentido de nos ligarmos a Deus, de
voltarmos como Filhos Pródigos à casa do Pai. Mas vamos além, nosso objetivo
não é só mostrar que a doutrina é uma religião legítima, pois ela não é apenas
uma religião. Ela é uma Ciência, uma Filosofia, uma Religião. O espiritismo é
simultaneamente essas três formas de conhecimento do mundo. Se assim não for,
não há espiritismo. Estaremos falando de qualquer coisa sem estes três aspectos,
mas não estaremos falando do Consolador Prometido:
O Espiritismo não tem o caráter isolado
de uma filosofia, de uma ciência ou de uma religião, porque é, ao mesmo tempo,
religião, filosofia e ciência. É simultaneamente revelação divina e obra de cooperação
dos Espíritos humanos desencarnados e encarnados. Tem a característica singular
de ser impessoal, complementar e progressivo; primeiro, por não ser fruto da
revelação de um só Espírito, nem o trabalho de um só homem; segundo, por ser a
complementação natural, expressa e lógica das duas primeiras Grandes Revelações
Divinas (a de Moisés e a do Cristo); terceiro, porque, como bem disse Kardec,
ele jamais dirá a última palavra. É ciência, porque investiga, experimenta,
comprova, sistematiza e conceitua lei, fatos, forças e fenômenos da vida, da
natureza, dos pensamentos e dos sentimentos humanos. É filosofia, porque
cogita, induz e deduz idéias e fatos lógicos sobre as causas primeiras e seus efeitos
naturais; generaliza e sintetiza, reflete, aprofunda e explica; estuda,
discerne e define motivos e conseqüências, comos e porquês de
fenômenos relativos à vida e à morte. É religião, porque de suas constatações
científicas e de suas conclusões filosóficas resulta o reconhecimento humano da
Paternidade Divina e da irmandade universal de todos os seres da Criação,
estabelecendo, desse modo, o culto natural do amor a Deus e ao próximo.
(Universo e Vida, Áureo)
Não cabe unilateralidade na visão
espírita. Se não estudarmos, compreendermos nos sujeitaremos a vários erros e a
repetição destes erros. Erros que desagregam, distorcem e prejudicam o
desenvolvimento, no íntimo de cada adepto, dessa doutrina de amor, luz e
esclarecimento
Este exemplo de discussão, ocorrido
naquela casa espírita, ressalta o problema da falta de estudo em que muitos
companheiros de seara se encontram. Não há verdadeiro espírita sem se colocar
na posição de aprendiz, estudante. Que fique para nós a reflexão da necessidade
de estudar as obras espíritas e a história do espiritismo com mais afinco. Pois
o estudo e a prática do amor, em doutrina espírita, não são atitudes superiores
que temos, são nosso dever, assim como o evangelho nos diz. E a escolha de
permanecer na ignorância ou buscar esclarecer-se depende única e exclusivamente
de cada um, é atitude intransferível. É bom pensarmos mais sobre isto.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
NOVAES,
Adenáuer M. F. de. Conhecendo o Espiritismo. 1ª ed. Bahia: Lar Harmonia, 1998.
.
Psicologia do Evangelho. 2ª ed. Bahia: Lar Harmonia, 1999.
KARDEC, Allan. O Livro dos
Espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 3ª ed. Rio de Janeiro: FEB Editora,
2008.
.
O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 3ª ed. Rio de
Janeiro: FEB Editora, 1996.
.
A Gênese. Trad. Guillon Ribeiro. 36ª ed. Rio de Janeiro: FEB Editora, 1995.
ÁUREO.
Psic. Hernani T. Sant’ Anna. Universo e Vida. 5ª ed. Rio de Janeiro: FEB
Editora, 1998.
Nenhum comentário:
Postar um comentário