[Recorte
da história “Maria”, ultimo capítulo do livro Boa Nova]
MARIA
[...]
Após a separação dos discípulos, que se dispersaram
por lugares diferentes, para a difusão da Boa Nova, Maria retirou-se para a Batanéia
, onde alguns parentes mais próximos a esperavam com especial carinho.
Os anos começaram a rolar, silenciosos e tristes,
para a angustiada saudade de seu coração.
Tocada por grandes dissabores, observou que, em
tempo rápido, as lembranças do filho amado se convertiam em elementos de
ásperas discussões, entre os seus seguidores. Na Batanéia, pretendia-se manter
uma certa aristocracia espiritual, por efeito dos laços consangüíneos que ali a
prendiam, em virtude dos elos que a ligavam a José. Em Jerusalém,
digladiavam-se os cristãos e os judeus, com veemência e acrimônia. Na Galiléia,
os antigos cenáculos simples e amoráveis da Natureza estavam tristes e
desertos.
Para aquela mãe amorosa, cuja alma digna observava
que o vinho generoso de Caná se transformara no vinagre do martírio, o tempo
assinalava sempre uma saudade maior no mundo e uma esperança cada vez mais
elevada no céu.
Sua vida era uma devoção incessante ao rosário
imenso da saudade, às lembranças mais queridas. Tudo que o passado feliz
edificara em seu mundo interior revivia na tela de suas lembranças, com minúcias
somente conhecidas do amor, e lhe alimentavam a seiva da vida.
Relembrava o seu Jesus pequenino, como naquela noite
de beleza prodigiosa, em que o recebera nos braços maternais, iluminado pelo
mais doce mistério. Figurava-se- -lhe escutar ainda o balido das ovelhas que
vinham, apressadas acercar-se do berço que se formara de improviso. E aquele
primeiro beijo, feito de carinho e de luz? As reminiscências envolviam a realidade
longínqua de singulares belezas para o seu coração sensível e generoso. Em seguida,
era o rio das recordações desaguando, sem cessar, na sua alma rica de
sentimentalidade e ternura. Nazaré lhe voltava à imaginação, com as suas
paisagens de felicidade e de luz. A casa singela, a fonte amiga, a sinceridade
das afeições, o lago majestoso e, no meio de todos os detalhes, o filho adorado,
trabalhando e amando, no erguimento da mais elevada concepção de Deus, entre os
homens da Terra. De vez em quando, parecia vê-lo em seus sonhos repletos de
esperança. Jesus lhe prometia o júbilo encantador de sua presença e participava
da carícia de suas recordações.
A esse tempo, o filho de Zebedeu, tendo presentes as
observações que o Mestre lhe fizera da cruz, surgiu na Batanéla, oferecendo
àquele espírito saudoso de mãe o refúgio amoroso de sua proteção. Maria aceitou
o oferecimento, com satisfação imensa.
E João lhe contou a sua nova vida. Instalara-se
definitivamente em Éfeso, onde as idéias cristãs ganhavam terreno entre almas
devotadas e sinceras. Nunca olvidara as recomendações do Senhor e, no íntimo,
guardava aquele título de filiação como das mais altas expressões de amor
universal para com aquela que recebera o Mestre nos braços veneráveis e carinhosos.
Maria escutava-lhe as confidências, num misto de
reconhecimento e de ventura.
João continuava a expor-lhe os seus planos mais
insignificantes. Levá-la-ia consigo, andariam ambos na mesma associação de
interesses espirituais. Seria seu filho desvelado, enquanto receberia de sua
alma generosa a ternura maternal, nos trabalhos do Evangelho. Demorara-se a
vir, explicava o filho de Zebedeu, porque lhe faltava uma choupana, onde se pudessem
abrigar; entretanto, um dos membros da família real de Adiabene, convertido ao
amor do Cristo, lhe doara uma casinha pobre, ao sul de Éfeso, distando três
léguas aproximadamente da cidade. A habitação simples e pobre demorava num
promontório, de onde se avistava o mar. No alto da pequena colina, distante dos
homens e no altar imponente da Natureza, se reuniriam ambos para cultivar a
lembrança permanente de Jesus. Estabeleceriam um pouso e refúgio aos
desamparados, ensinariam as verdades do Evangelho a todos os espíritos de
boa-vontade e, como mãe e filho, iniciariam uma nova era de amor, na comunidade
universal.
Maria aceitou alegremente.
Dentro de breve tempo, instalaram-se no seio amigo
da Natureza, em frente do oceano. Éfeso ficava pouco distante; porém, todas as
adjacências se povoavam de novos núcleos de habitações alegres e modestas. A
casa de João, ao cabo de algumas semanas, se transformou num ponto de
assembléias adoráveis, onde as recordações do Messias eram cultuadas por
espíritos humildes e sinceros.
Maria externava as suas lembranças. Falava dele com
maternal enternecimento, enquanto o apóstolo comentava as verdades evangélicas,
apreciando os ensinos recebidos. Vezes inúmeras, a reunião somente terminava
noite alta, quando as estrelas tinham maior brilho. E não foi só. Decorridos
alguns meses, grandes fileiras de necessitados acorriam ao sitio singelo e generoso.
A notícia de que Maria descansava, agora, entre eles, espalhara um clarão de
esperança por todos os sofredores. Ao passo que João pregava na cidade as
verdades de Deus, ela atendia, no pobre santuário doméstico, aos que a procuravam
exibindo-lhe suas úlceras e necessidades.
Sua choupana era, então, conhecida pelo nome de “Casa
da Santíssima”.
O fato tivera origem em certa ocasião, quando um
miserável leproso, depois de aliviado em suas chagas, lhe osculou as mãos,
reconhecidamente murmurando:
“Senhora, sois a mãe de nosso Mestre e nossa Mãe
Santissima!”
A tradição criou raízes em todos os espíritos. Quem
não lhe devia o favor de uma palavra maternal nos momentos mais duros? E João
consolidava o conceito, acentuando que o mundo lhe seria eternamente grato,
pois fora pela sua grandeza espiritual que o Emissário de Deus pudera penetrar
a atmosfera escura e pestilenta do mundo para balsamizar os sofrimentos da
críatura. Na sua humildade sincera, Maria se esquivava às homenagens afetuosas
dos discípulos de Jesus, mas aquela confiança filial com que lhe reclamavam a
presença era para sua alma um brando e delicioso tesouro do coração. O título
de maternidade fazia vibrar em seu espírito os cânticos mais doces.
Diariamente, acorriam os desamparados, suplicando a sua assistência espiritual.
Eram velhos trôpegos e desenganados do mundo, que lhe vinham ouvir as palavras
confortadoras e afetuosas, enfermos que invocavam a sua proteção, mães
infortunadas que pediam a bênção de seu carinho.
“Minha mãe – dizia um dos mais aflitos – como
poderei vencer as minhas dificuldades? Sinto-me abandonado na estrada escura da
vida.”
Maria lhe enviava o olhar amoroso da sua bondade,
deixando nele transparecer toda a dedicação enternecida de seu espírito
maternal.
“Isso também passa! – dizia ela, carinhosamente – só
o Reino de Deus é bastante forte para nunca passar de nossas almas, como eterna
realização do amor celestial.”
Seus conceitos abrandavam a dor dos mais
desesperados, desanuviavam o pensamento obscuro dos mais acabrunhados.
A igreja de Éfeso exigia de João a mais alta
expressão de sacrifício pessoal, pelo que, com o decorrer do tempo, quase
sempre Maria estava só, quando a legião humilde dos necessitados descia o
promontório desataviado, rumo aos lares mais confortados e felizes. Os dias e
as semanas, os meses e os anos passaram incessantes, trazendo-lhe as lembranças
mais ternas. Quando sereno e azulado, o mar lhe fazia voltar à memória o
Tiberíades distante. Surpreendia no ar aqueles perfumes vagos que enchiam a
alma da tarde, quando seu filho, de quem nem um instante se esquecia, reunindo
os discípulos amados, transmitia ao coração do povo as louçanias da Boa Nova. A
velhice não lhe acarretara nem cansaços nem amarguras. A certeza da proteção
divina lhe proporcionava ininterrupto consolo. Como quem transpõe o dia em
labores honestos e proveitosos, seu coração experimentava grato repouso,
iluminado pelo luar da esperança e pelas estrelas fulgurantes da crença
imorredoura. Suas meditações eram suaves colóquios com as reminiscências do
filho muito amado.
Súbito recebeu notícias de que um período de
dolorosas perseguições se havia aberto para todos os que fossem fiéis à
doutrina do seu Jesus divino. Alguns cristãos banidos de Roma traziam a Éfeso
as tristes informações. Em obediência aos éditos mais injustos, escravizavam-se
os seguidores do Cristo, destruíam-se-Ihes os lares, metiam-nos a ferros nas prisões.
Falava-se de festas públicas, em que seus corpos eram dados como alimento a
feras insaciáveis, em horrendos espetáculos.
Então, num crepúsculo estrelado, Maria entregou-se
às orações, como de costume, pedindo a Deus por todos aqueles que se
encontrassem em angústias do coração, por amor de seu filho.
Embora a soledade do ambiente, não se sentia só: uma
como força singular lhe banhava a alma toda. Aragens suaves sopravam do oceano,
espalhando os aromas da noite que se povoava de astros amigos e afetuosos e, em
poucos minutos, a lua plena participava, igualmente, desse concerto de harmonia
e de luz.
Enlevada nas suas meditações, Maria viu aproximar-se
o vulto de um pedinte.
“Minha mãe – exclamou o recém-chegado, como tantos
outros que recorriam ao seu carinho —, venho fazer-te companhia e receber a tua
bênção.”
Maternalmente, ela o convidou a entrar,
impressionada com aquela voz que lhe inspirava profunda simpatia. O peregrino
lhe falou do céu, confortando-a delicadamente. Comentou as bem-aventuranças
divinas que aguardam a todos os devotados e sinceros filhos de Deus, dando a
entender que lhe compreendia as mais ternas saudades do coração. Maria
sentiu-se empolgada por tocante surpresa. Que mendigo seria aquele que lhe
acalmava as dores secretas da alma saudosa, com bálsamos tão dulçorosos? Nenhum lhe surgira até então para dar; era
sempre para pedir alguma coisa. No entanto, aquele viandante desconhecido lhe
derramava no íntimo as mais santas consolações. Onde ouvira noutros tempos aquela
voz meiga e carinhosa?! Que emoções eram aquelas que lhe faziam pulsar o
coração de tanta carícia? Seus olhos se umedeceram de ventura, sem que
conseguisse explicar a razão de sua terna emotividade.
Foi quando o hóspede anônimo lhe estendeu as mãos
generosas e lhe falou com profundo acento de amor:
“Minha mãe, vem aos meus braços!”
Nesse instante, fitou as mãos nobres que se lhe
ofereciam, num gesto da mais bela ternura. Tomada de comoção profunda, viu
nelas duas chagas, como as que seu filho revelava na cruz e, instintivamente,
dirigindo o olhar ansioso para os pés do peregrino amigo, divisou também aí as
úlceras causadas pelos cravos do suplício. Não pôde mais. Compreendendo a
visita amorosa que Deus lhe enviava ao coração, bradou com infinita alegria:
“Meu filho! meu filho! as úlceras que te fizeram!. .
.”
E
precipitando-se para ele, como mãe carinhosa e desvelada, quis certificar-se, tocando
a ferida que lhe fora produzida pelo último lançaço, perto do coração. Suas
mãos ternas e solícitas o abraçaram na sombra visitada pelo luar, procurando
sofregamente a úlcera que tantas lágrimas lhe provocara ao carinho maternal. A
chaga lateral também lá estava, sob a carícia de suas mãos. Não conseguiu
dominar o seu intenso júbilo. Num ímpeto de amor, fez um movimento para se
ajoelhar. Queria abraçar-se aos pés do seu Jesus e osculá-los com ternura. Ele,
porém, levantando-a, cercado de um halo de luz celestial, se lhe ajoelhou aos
pés e, beijando-lhe as mãos, disse em carinhoso transporte:
“Sim, minha mãe, sou eu!... Venho buscar-te, pois
meu Pai quer que sejas no meu reino a Rainha dos Anjos...
Maria cambaleou, tomada de inexprimível ventura.
Queria dizer da sua felicidade, manifestar seu agradecimento a Deus; mas o
corpo como que se lhe paralisara, enquanto aos seus ouvidos chegavam os ecos
suaves da saudação do Anjo, qual se a entoassem mil vozes cariciosas, por entre
as harmonias do céu.
No outro dia, dois portadores humildes desciam a
Éfeso, de onde regressaram com João, para assistir aos últimos instantes
daquela que lhes era a devotada Mãe Santíssima.
Maria já não falava. Numa inolvidável expressão de
serenidade, por longas horas ainda esperou a ruptura dos derradeiros laços que
a prendiam à vida material.
***
A alvorada desdobrava o seu formoso leque de luz
quando aquela alma eleita se elevou da Terra, onde tantas vezes chorara de
júbilo, de saudade e de esperança. Não mais via seu filho bem-amado, que
certamente a esperaria, com as boas vindas, no seu reino de amor; mas, extensas
multidões de entidades angélicas a cercavam cantando hinos de glorificação.
Experimentando a sensação de se estar afastando do
mundo, desejou rever a Galiléia com os seus sítios preferidos. Bastou a
manifestação de sua vontade para que a conduzissem à região do lago de
Genesaré, de maravilhosa beleza. Reviu todos os quadros do apostolado de seu
filho e, só agora, observando do alto a paisagem, notava que o Tiberíades, em
seus contornos suaves, apresentava a forma quase perfeita de um alaúde.
Lembrou-se, então, de que naquele instrumento da Natureza Jesus cantara o mais
belo poema de vida e amor, em homenagem a Deus e à humanidade. Aquelas águas
mansas, filhas do Jordão marulhoso e calmo, haviam sido as cordas sonoras do
cântico evangélico.
Dulcíssimas alegrias lhe invadiam o coração e já a
caravana espiritual se dispunha a partir, quando Maria se lembrou dos
discípulos perseguidos pela crueldade do mundo e desejou abraçar os que
ficariam no vale das sombras, à espera das claridades definitivas do Reino de
Deus. Emitindo esse pensamento, imprimiu novo impulso às multidões espirituais
que a seguiam de perto. Em poucos instantes, seu olhar divisava uma cidade
soberba e maravilhosa, espalhada sobre colinas enfeitadas de carros e
monumentos que lhe provocavam assombro. Os mármores mais ricos esplendiam nas
magnificentes vias públicas, onde as liteiras patrícias passavam sem cessar,
exibindo pedrarias e peles, sustentadas por misérrimos escravos. Mais alguns
momentos e seu olhar descobria outra multidão guardada a ferros em escuros
calabouços. Penetrou os sombrios cárceres do Esquilino, onde centenas de rostos
amargurados retratavam padecimentos atrozes. Os condenados experimentaram no
coração um consolo desconhecido.
Maria se aproximou de um a um, participou de suas
angústias e orou com as suas preces, cheias de sofrimento e confiança.
Sentiu-se mãe daquela assembléia de torturados pela injustiça do mundo.
Espalhou a claridade misericordiosa de seu espírito entre aquelas fisionomias
pálidas e tristes. Eram anciães que confiavam no Cristo, mulheres que por ele
haviam desprezado o conforto do lar, jovens que depunham no Evangelho do Reino
toda a sua esperança. Maria aliviou-lhes o coração e, antes de partir,
sinceramente desejou deixar-lhes nos espíritos abatidos uma lembrança perene.
Que possuía para lhes dar? Deveria suplicar a Deus para eles a liberdade?! Mas,
Jesus ensinara que com ele todo jugo é suave e todo fardo seria leve,
parecendo-lhe melhor a escravidão com Deus do que a falsa liberdade nos desvãos
do mundo. Recordou que seu filho deixara a força da oração como um poder
incontrastável entre os discípulos amados. Então, rogou ao Céu que lhe desse a
possibilidade de deixar entre os cristãos oprimidos a força da alegria. Foi
quando, aproximando-se de uma jovem encarcerada, de rosto descarnado e
macilento, lhe disse ao ouvido:
“Canta, minha filha! Tenhamos bom ânimo!...
Convertamos as nossas dores da Terra em alegrias para o Céu!..”
A triste prisioneira nunca saberia compreender o
porquê da emotividade que lhe fez vibrar subitamente o coração. De olhos
extáticos, contemplando o firmamento luminoso, através das grades poderosas,
ignorando a razão de sua alegria, cantou um hino de profundo e enternecido amor
a Jesus, em que traduzia sua gratidão pelas dores que lhe eram enviadas,
transformando todas as suas amarguras em consoladoras rimas de júbilo e
esperança. Daí a instantes, seu canto melodioso era acompanhado pelas centenas
de vozes dos que choravam no cárcere, aguardando o glorioso testemunho.
Logo, a caravana majestosa conduziu ao Reino do
Mestre a bendita entre as mulheres e, desde esse dia, nos tormentos mais duros,
os discípulos de Jesus têm cantado na Terra, exprimindo o seu bom ânimo e a sua
alegria, guardando a suave herança de nossa Mãe Santíssima.
***************
Por essa razão, irmãos meus, quando ouvirdes o
cântico nos templos das diversas famílias religiosas do Cristianismo, não vos
esqueçais de fazer no coração um brando silêncio, para que a Rosa Mística de
Nazaré espalhe aí o seu perfume!
[Humberto
de Campos/Chico Xavier, Boa Nova)

Como essa história é maravilhosa!! Não há como não se emocionar com a ternura da Mãe Santíssima.
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