I N T R O D U Ç Ã O AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA
Introdução do
Livro dos Espíritos
I
Para
se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza da
linguagem, para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas
palavras. Os vocábulos espiritual, espiritualista, espiritualismo têm
acepção bem definida. Dar lhes outra, para aplicá-los à doutrina dos Espíritos,
fora multiplicar as causas já numerosas de anfibologia. Com efeito, o
espiritismo é o oposto do materialismo. Quem quer que acredite haver em si
alguma coisa mais do que matéria, é espiritualista. Não se segue daí, porém, que
creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível.
Em vez das palavras espiritual, espiritualismo, empregamos, para indicar
a crença a que vimos de referir-nos, os termos espírita e espiritismo,
cuja forma lembra a origem e o sentido radical e que, por isso mesmo,
apresentam a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando ao vocábulo espiritualismo
a acepção que lhe é própria. Diremos, pois, que a doutrina espírita ou o
Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou
seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas,
ou, se quiserem, os espiritistas.
Como
especialidade, o Livro dos Espíritos contém a doutrina espírita; como generalidade,
prende-se à doutrina espiritualista, uma de cujas fases apresenta. Essa
a razão porque traz no cabeçalho do seu título as palavras: Filosofia
espiritualista.
[...]
VI
Conforme
notamos acima, os próprios seres que se comunicam se designam a si mesmos pelo
nome de Espíritos ou Gênios, declarando, alguns, pelo menos, terem pertencido a
homens que viveram na Terra. Eles compõem o mundo espiritual, como nós constituímos
o mundo corporal durante a vida terrena.
Vamos
resumir, em poucas palavras, os pontos principais da doutrina que nos transmitiram,
a fim de mais facilmente respondermos a certas objeções
Deus
é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom.
Criou
o Universo, que abrange todos os seres animados e inanimados, materiais e imateriais.
Os
seres materiais constituem o mundo visível ou corpóreo, e os seres imateriais,
o mundo invisível ou espírita, isto é, dos Espíritos.
O
mundo espírita é o mundo normal, primitivo, eterno, preexistente e sobrevivente
a tudo.
O
mundo corporal é secundário; poderia deixar de existir, ou não ter jamais existido,
sem que por isso se alterasse a essência do mundo espírita.
Os
Espíritos revestem temporariamente um invólucro material perecível, cuja destruição
pela morte lhes restitui a liberdade.
Entre
as diferentes espécies de seres corpóreo, Deus escolheu a espécie humana para a
encarnação dos Espíritos que chegaram a certo grau de desenvolvimento, dando-lhe
superioridade moral e intelectual sobre as outras.
“A
alma é um Espírito encarnado, sendo o corpo apenas o seu envoltório.
Há
no homem três coisas: 1°, o corpo ou ser material análogo aos animais e animado
pelo mesmo princípio vital; 2°, a alma ou ser imaterial, Espírito encarnado no corpo;
3°, o laço que prende a alma ao corpo, princípio intermediário entre a matéria
e o Espírito.
Tem
assim o homem duas naturezas: pelo corpo, participa da natureza dos animais,
cujos instintos lhe são comuns; pela alma, participa da natureza dos Espíritos.
O
laço ou perispírito, que prende ao corpo o Espírito, é uma espécie de envoltório
semimaterial.
A
morte é a destruição do invólucro mais grosseiro. O Espírito conserva o segundo,
que lhe constitui um corpo etéreo, invisível para nós no estado normal, porém que
pode tornar-se acidentalmente visível e mesmo tangível, como sucede no fenômeno
das aparições.
O
Espírito não é, pois, um ser abstrato, indefinido, só possível de conceber-se
pelo pensamento. É um ser real, circunscrito, que, em certos casos, se torna
apreciável pela vista, pelo ouvido e pelo tato.
Os
Espíritos pertencem a diferentes classes e não são iguais, nem em poder, nem em
inteligência, nem em saber, nem em moralidade. Os da primeira ordem são os Espíritos
superiores, que se distinguem dos outros pela sua perfeição, seus
conhecimentos, sua proximidade de Deus, pela pureza de seus sentimentos e por
seu amor do bem: são os anjos ou puros Espíritos. Os das outras classes se
acham cada vez mais distanciados dessa perfeição, mostrando-se os das
categorias inferiores, na sua maioria eivados das nossas paixões: o ódio, a inveja,
o ciúme, o orgulho, etc. Comprazem-se no mal. Há também, entre os inferiores,
os que não são nem muito bons nem muito mais, antes perturbadores e enredadores,
do que perversos. A malícia e as inconseqüências parecem ser o que neles predomina.
São os Espíritos estúrdios ou levianos.
Os
Espíritos não ocupam perpetuamente a mesma categoria. Todos se melhoram passando
pelos diferentes graus da hierarquia espírita. Esta melhora se efetua por meio
da encarnação, que é imposta a uns como expiação, a outros como missão. A vida
material é uma prova que lhes cumpre sofrer repetidamente, até que hajam
atingido a absoluta perfeição moral. Deixando o corpo, a alma volve ao mundo dos
Espíritos, donde saíra, para passar por nova existência material, após um lapso
de tempo mais ou menos longo, durante o qual permanece em estado de Espírito
errante.(1)
Tendo
o Espírito que passar por muitas encarnações, segue-se que todos nós temos tido
muitas existências e que teremos ainda outras, mais ou menos aperfeiçoadas,
quer na Terra, quer em outros mundos.
A
encarnação dos Espíritos se dá sempre na espécie humana; seria erro
acreditar-se que a alma ou Espírito possa encarnar no corpo de um animal.
As
diferentes existências corpóreas do Espírito são sempre progressivas e nunca regressivas;
mas, a rapidez do seu progresso depende dos esforços que faça para chegar à perfeição.
As
qualidades da alma são as do Espírito que está encarnado em nós; assim, o homem
de bem é a encarnação de um bom Espírito, o homem perverso a de um Espírito impuro.
A
alma possuía sua individualidade antes de encarnar; conserva-a depois de se haver
separado do corpo.
Na
sua volta ao mundo dos Espíritos, encontra ela todos aqueles que conhecera na Terra,
e todas as suas existências anteriores se lhe desenham na memória, com a lembrança
de todo bem e de todo mal que fez.
O
Espírito encarnado se acha sob a influência da matéria; o homem que vence esta influência,
pela elevação e depuração de sua alma, se aproxima dos bons Espíritos, em cuja companhia
um dia estará. Aquele que se deixa dominar pelas más paixões, e põe todas as suas
alegrias na satisfação dos apetites grosseiros, se aproxima dos Espíritos impuros,
dando preponderância à sua natureza animal.
Os
Espíritos encarnados habitam os diferentes globos do Universo.
Os
não encarnados ou errantes não ocupam uma região determinada e circunscrita; estão
por toda parte no espaço e ao nosso lado, vendo-nos e acotovelando-nos de
contínuo.
É
toda uma população invisível, a mover-se em torno de nós. Os Espíritos exercem
incessante ação sobre o mundo moral e mesmo sobre o mundo físico. Atuam sobre a
matéria e sobre o pensamento e constituem uma das potências da Natureza, causa
eficiente de uma multidão de fenômenos até então inexplicados ou mal explicados
e que não encontram explicação racional senão no Espiritismo.
As
relações dos Espíritos com os homens são constantes. Os bons Espíritos nos atraem
para o bem, nos sustentam nas provas da vida e nos ajudam a suportá-las com coragem
e resignação. Os maus nos impelem para o mal: é-lhes um gozo ver-nos e assemelhar-nos
a eles.
As
comunicações dos Espíritos com os homens são ocultas ou ostensivas. As ocultas
se verificam pela influência boa ou má que exercem sobre nós, à nossa revelia.
Cabe
ao nosso juízo discernir as boas das más inspirações. As comunicações
ostensivas se dão por meio da escrita, da palavra ou de outras manifestações
materiais, quase sempre pelos médiuns que lhes servem de instrumentos.
Os
Espíritos se manifestam espontaneamente ou mediante evocação.
Podem
evocar-se todos os Espíritos: os que animaram homens obscuros, como os das
personagens mais ilustres, seja qual for a época em que tenham vivido; os de nossos
parentes, amigos, ou inimigos, e obter-se deles, por comunicações escritas ou
verbais, conselhos, informações sobre a situação em que se encontram no Além,
sobre o que pensam a nosso respeito, assim como as revelações que lhes sejam
permitidas fazer-nos.
Os
Espíritos são atraídos na razão da simpatia que lhes inspire a natureza moral
do meio que os evoca. Os Espíritos superiores se comprazem nas reuniões sérias,
onde predominam o amor do bem e o desejo sincero, por parte dos que as compõem,
de se instruírem e melhorarem. A presença deles afasta os Espíritos inferiores
que, inversamente, encontram livre acesso e podem obrar com toda a liberdade
entre pessoas frívolas ou impelidas unicamente pela curiosidade e onde quer que
existam maus instintos.
Longe
de se obterem bons conselhos, ou informações úteis, deles só se devem esperar futilidades,
mentiras, gracejos de mau gosto, ou mistificações, pois que muitas vezes tomam
nomes venerados, a fim de melhor induzirem ao erro.
Distinguir
os bons dos maus Espíritos é extremamente fácil. Os Espíritos superiores usam
constantemente de linguagem digna, nobre, repassada da mais alta moralidade, escoimada
de qualquer paixão inferior; a mais pura sabedoria lhes transparece dos conselhos,
que objetivam sempre o nosso melhoramento e o bem da Humanidade. A dos Espíritos
inferiores, ao contrário, é inconseqüente, amiúde trivial e até grosseira. Se, por
vezes, dizem alguma coisa boa e verdadeira, muito mais vezes dizem falsidades e
absurdos, por malícia ou ignorância. Zombam da credulidade dos homens e se
divertem à custa dos que os interrogam, lisonjeando-lhes a vaidade,
alimentando-lhes os desejos com falazes esperanças. Em resumo, as comunicações
sérias, na mais ampla acepção do termo, só são dadas nos centros sérios, onde
intima comunhão de pensamentos, tendo em vista o bem.
A
moral dos Espíritos superiores se resume, como a do Cristo, nesta máxima evangélica:
Fazer aos outros o que quereríamos que os outros nos fizessem, isto é, fazer o bem
e não o mal. Neste princípio encontra o homem uma regra universal de proceder, mesmo
para as suas menores ações.
Ensinam-nos
que o egoísmo, o orgulho, a sensualidade são paixões que nos aproximam da
natureza animal, prendendo-nos à matéria; que o homem que, já neste mundo, se
desliga da matéria, desprezando as futilidades mundanas e amando o próximo, se avizinha
da natureza espiritual; que cada um deve tornar-se útil, de acordo com as faculdades
e os meios que Deus lhe pôs nas mãos para experimentá-lo; que o Forte e o Poderoso
devem amparo e proteção ao Fraco, porquanto transgride a Lei de Deus aquele que
abusa da força e do poder para oprimir o seu semelhante. Ensinam, finalmente,
que, no mundo dos Espíritos, nada podendo estar oculto, o hipócrita será
desmascarado e patenteadas todas as suas torpezas, que a presença inevitável, e
de todos os instantes, daqueles para com quem houvermos procedido mal constitui
um dos castigos que nos estão reservados; que ao estado de inferioridade e
superioridade dos Espíritos correspondem penas e gozos desconhecidos na Terra.
Mas,
ensinam também não haver faltas irremissíveis, que a expiação não possa apagar.
Meio de consegui-lo encontra o homem nas diferentes existências que lhe permitem
avançar, conformemente aos seus desejos e esforços, na senda do progresso, para
a perfeição, que é o seu destino final.
Este
o resumo da Doutrina Espírita, como resulta dos ensinamentos dados pelos Espíritos
superiores. Vejamos agora as objeções que se lhe contrapõem.
_________
(1)
Há entre esta doutrina da reencarnação e a da metempsicose, como a admitem
certas seitas, uma diferença característica, que é explicada no curso da
presente obra.
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