Discurso
I
O homem que pratica o
bem – isto dito em tese geral – deve, pois, preparar-se para se ferir na
ingratidão, para ter contra ele aqueles que, não o praticando, são ciumentos da
estima concedida aos que o praticam. Os primeiros, não se sentindo dotados de
força para se elevarem, procuram rebaixar os outros ao seu nível, obstinam-se
em anular, pela maledicência ou a calúnia, aqueles que os ofuscam. Ouve-se
constantemente dizer que a ingratidão com que somos pagos endurece o nosso
coração e nos torna egoístas. Falar assim é provar que se tem o coração fácil
de ser endurecido, uma vez que esse temor não poderia deter o homem
verdadeiramente bom. O reconhecimento é já uma remuneração pelo bem que se faz;
praticá-lo tendo em vista essa remuneração é fazê-lo por interesse. Por outro
lado, quem sabe se aquele que beneficiamos, e do qual nada esperamos, não será
estimulado a mais elevados sentimentos por um reto proceder? Esse pode ser,
talvez, um meio de levá-lo a refletir, de suavizar sua alma, de salvá-lo! Essa
esperança constitui uma nobre ambição. Se nos inferiorizarmos não realizaremos
o que nos compete realizar.
[...]
Pondo de lado qualquer
questão pessoal, tenho adversários naturais nos inimigos do Espiritismo. Não
cogiteis que melamente! Longe disso! Quanto maior é a animosidade deles, melhor
se comprova a importância que a Doutrina Espírita assume aos seus olhos. Se se
tratasse de algo sem conseqüências, uma dessas utopias que já nascem inviáveis,
não lhe prestariam atenção. Não tendes visto escritos vazados em um tom de
hostilidade que não se encontra nos meus – quanto à ideologia –, e nos quais as
expressões não são mais parcimoniosas do que o atrevimento dos pensamentos?
Contra eles, todavia, não enunciam uma única palavra! O mesmo se daria se as
doutrinas que luto por difundir permanecessem circunscritas às páginas de um
livro. Entretanto – o que pode parecer mais espantoso –, o fato é que tenho
adversários mesmo entre os adeptos do Espiritismo. Ora, nesta área é que uma
explicação se torna necessária. Entre os que adotam as idéias espíritas há,
como bem sabeis, três categorias bem distintas:
1)
os que crêem pura e simplesmente nos
fenômenos das manifestações, mas que deles não deduzem qualquer conseqüência
moral;
2)
os que percebem o alcance moral, mas o
aplicam aos outros e não a si mesmos;
3)
os que aceitam pessoalmente todas as
conseqüências da doutrina e que praticam ou se esforçam por praticar sua moral.
Estes últimos, vós bem
o sabeis, são os espíritas praticantes, os verdadeiros espíritas. Essa
distinção é importante, pois que bem explica as anomalias aparentes. Sem isso
seria difícil compreendermos as atitudes de determinadas pessoas. Ora, o que
preceitua essa moral? Amai-vos uns aos outros; perdoai os vossos inimigos;
retribuí o bem ao mal; não tenhais ira, nem rancor, nem animosidade, nem
inveja, nem ciúme; sede severos para convosco mesmos e indulgentes para com os
outros. Tais devem ser os sentimentos do verdadeiro espírita, aquele que se
atém ao fundo e não à forma, que coloca o espírito acima da matéria. Ele pode
ter inimigos, mas não é inimigo de ninguém, pois que não deseja o mal a quem
quer que seja e, com maiores razões, não procura fazer o mal a ninguém. Esse,
como vede, senhores, é um princípio geral, do qual toda a gente pode
beneficiar-se. Se, pois, tenho inimigos, eles não podem ser contados entre os
espíritas dessa categoria, pois que, admitindo que tivessem motivos legítimos
de queixa contra mim, o que me esforço por evitar, esse não seria um motivo
para me odiarem e, com melhores razões se nunca lhes fiz qualquer mal. O
Espiritismo tem por divisa: Fora da caridade não há salvação, o que equivale dizer:
Fora da caridade não pode existir verdadeiros espíritas. Solicito-vos
inscrever, daqui para a frente, essa divisa em vossas bandeiras, pois que ela
resume ao mesmo tempo a finalidade do Espiritismo e o dever que ele impõe.
Estando, pois, admitido que não se pode ser um bom espírita com sentimentos de
rancor no coração, eu me orgulho de contar apenas com amigos entre estes
últimos, pois que, se eu tiver defeitos, eles saberão desculpá-los. Veremos, em
seguida, a que imensas e férteis conseqüências conduz esse princípio.
(Allan Kardec, Viagem Espírita em 1862)
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