Uma microscópica visão sobre o Espiritismo

A Doutrina Espírita não tem o caráter isolado de uma Religião, de uma Filosofia ou de uma Ciência, pois ela é, simultaneamente, essa tríade: Filosofia, Ciência e Religião. Se tirarmos um desses elementos da Doutrina dos Espíritos (como a chamava Léon Denis), já não há mais Espiritismo. E ela - é importante ressaltar - não é uma invenção do senhor Allan Kardec, pois tem a característica da impessoalidade. Ele foi o Codificador. Nas palavras dele:

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"Há entre o Espiritismo e outros sistemas filosóficos esta diferença capital; que estes são todos obra de homens, mais ou menos esclarecidos, ao passo que, naquele que me atribuís, eu não tenho o mérito da invenção de um só princípio.
Diz-se: a filosofia de Platão, de Descartes, de Leibnitz; nunca se poderá dizer: a doutrina de Allan Kardec; e isto, felizmente, pois que valor pode ter um nome em assunto de tamanha gravidade?
O Espiritismo tem auxiliares de maior preponderância, ao lado dos quais somos simples átomos." (Allan Kardec, O que é o Espiritismo)."
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Este blog visa contribuir com as reflexões sobre a Doutrina Espírita com textos meus e de autores que admiro. Não pretendo com isso exaltar minha personalidade, embora eu vá publicar aqui as datas de algumas palestras minhas (isto por conta de pedido de amigos), mas também de outros colaboradores do espiritismo e de eventos espíritas em Goiânia e fora daqui.
Aqueles que visitarem, sejam bem vindos!


"A maior caridade que podemos fazer pela doutrina espírita é sua divulgação." -Emmanuel-

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Ciùme

Joanna Ângelis, O Ser Consciente


Tipificando insegurança psicológica e desconfiança sistemática, a presença do ciúme na alma transforma-se em algoz implacável do ser. O paciente que lhe tomba nas malhas estertora em suspeitas e verdades, que nunca encontram apoio nem reconforto.

Atormentado pelo ego dominador, o paciente, quando não consegue asfixiar aquele a quem estima ou ama, dominando-lhe a conduta e o pensamento, foge para o ciúme, em cujo campo se homizia a fim de entregar-se aos sofrimentos masoquistas que lhe ocultam a imaturidade, a preguiça mental e o desejo de impor-se à vítima de sua psicopatologia.

No aturdimento do ciúme, o ego vê o que lhe agrada e se envolve apenas com aquilo em que acredita, ficando surdo à razão, à verdade.

O ciúme atenaza quem o experimenta e aquele que se lhe torna alvo preferencial.

O ciumento, inseguro dos próprios valores, descarrega a fúria do estágio primitivista em manifestações ridículas, quão perturbadoras, em que se consome. Ateia incêndios em ocorrências imaginárias, com a mente exacerbada pela suspeita infeliz, e envenena-se com os vapores da revolta em que se rebolca, insanamente.

Desviando-se das pessoas e ampliando o círculo de prevalência, o ciúme envolve objetos e posições, posses e valores que assumem uma importância alucinada, isolando o paciente nos sítios da angústia ou armando-o com instrumentos de agressão contra todos e tudo.

O ciúme tende a levar sua vítima à loucura.

O ego enciumado fixa o móvel da existência no desejo exorbitante e circunscreve-se à paixão dominadora, destruindo as resistências morais e emocionais, que terminam por ceder-lhe as forças, deixando de reagir.

Armadilha do ego presunçoso, ele merece o extermínio através da conquista de valores expressivos, que demonstrem ao próprio indivíduo as suas possibilidades de ser feliz.

Somente o self pode conseguir essa façanha, arrebentando as algemas a que se encontra agrilhoado, para assomar, rico de realizações interiores, superando a estreiteza e os limites egóicos, expandindo-se e preenchendo os espaços emocionais, as aspirações espirituais, vencidos pelos gases venenosos do ciúme.

Liberando-se da compressão do ciúme, a pouco e pouco, o eu profundo respira, alcança as praias largas da existência e desfruta de paz com alguém ou não, com algo ou nada, porém com harmonia, com amor, com a vida.

Matéria mental (André Luiz)

André Luiz, Mecanismos da Mediunidade

Matéria mental

Pensamento do Criador


Identificando o Fluido Elementar ou Hálito Divino por base mantenedora de todas as associações da forma nos domínios inumeráveis do Cosmo, do qual conhecemos o elétron como sendo um dos corpúsculos-base, nas organizações e oscilações da matéria, interpretaremos o Universo como um todo de forças dinâmicas, expressando o Pensamento do Criador. E superpondo-se-lhe à grandeza indevassável, encontraremos a matéria mental que nos é própria, em agitação constante, plasmando as criações temporárias, adstritas à nossa necessidade de progresso.
No macrocosmo e no microcosmo, tateamos as manifestações da Eterna Sabedoria que mobiliza agentes incontáveis para a estruturação de sistemas e formas, em variedade infinita de graus e fases, e entre o infinitamente pequeno e o infinitamente grande surge a inteligência humana, dotada igualmente da faculdade de mentalizar e co-criar, empalmando, para isso, os recursos intrínsecos à vida ambiente.
Nos fundamentos da Criação vibra o pensamento imensurável do Criador e sobre esse plasma divino vibra o pensamento mensurável da criatura, a constituir-se no vasto oceano de força mental em que os poderes do Espírito se manifestam.

Pensamento das criaturas

Do Princípio Elementar, fluindo incessantemente no campo cósmico, auscultamos, de modo imperfeito, as energias profundas que produzem eletricidade e magnetismo, sem conseguir enquadrá-las em exatas definições terrestres, e, da matéria mental dos seres criados, estudamos o pensamento ou fluxo energético do campo espiritual de cada um deles, a se graduarem nos mais diversos tipos de onda, desde os raios super-ultra-curtos, em que se exprimem as legiões angélicas, através de processos ainda inacessíveis à nossa observação, passando pelas oscilações curtas, médias e longas em que se exterioriza a mente humana, até às ondas fragmentárias dos animais, cuja vida psíquica, ainda em germe, somente arroja de si determinados pensamentos ou raios descontínuos.
Os Espíritos aperfeiçoados, que conhecemos sob a designação de potências angélicas do Amor Divino, operam no micro e no macrocosmo, em nome da Sabedoria Excelsa, formando condições adequadas e multiformes à expansão, sustentação e projeção da vida, nas variadas esferas da Natureza, no encalço de aquisições celestiais que, por enquanto, estamos longe de perceber. A mente dos homens, indiretamente controlada pelo comando superior, interfere no acervo de recursos do Planeta, em particular, aprimorando-lhe os recursos na direção do plano angélico, e a mente embrionária dos animais, influenciada pela direção humana, hierarquiza-se em serviço nas regiões inferiores, da Terra, no rumo das conquistas da Humanidade.

Corpúsculos mentais

Como alicerce vivo de todas as realizações nos planos físico e extra-físico, encontramos o pensamento por agente essencial. Entretanto, ele ainda é matéria, – a matéria mental, em que as leis de formação das cargas magnéticas ou dos sistemas atômicos prevalecem sob novo sentido, compondo o maravilhoso mar de energia sutil em que todos nos achamos submersos e no qual surpreendemos elementos que transcendem o sistema periódico dos elementos químicos conhecidos no mundo.
Temos, ainda aqui, as formações corpusculares, com bases nos sistemas atômicos em diferentes condições vibratórias, considerando os átomos, tanto no plano físico, quanto no plano mental, como associações de cargas positivas e negativas.
Isso nos compele naturalmente a denominar tais princípios de “núcleos, prótons, nêutrons, posítrons, elétrons ou fótons mentais”, em vista da ausência de terminologia analógica para estruturação mais segura de nossos apontamentos.
Assim é que o halo vital ou aura de cada criatura permanece tecido de correntes atômicas sutis dos pensamentos que lhe são próprios ou habituais, dentro de normas que correspondem à lei dos “quanta de energia” e aos princípios da mecânica ondulatória, que lhes imprimem freqüência e cor peculiares.
Essas forças, em constantes movimentos sincrônicos ou estado de agitação pelos impulsos da vontade, estabelecem para cada pessoa uma onda mental própria.

Matéria mental e matéria física

Em posição vulgar, acomodados às impressões comuns da criatura humana normal, os átomos mentais inteiros, regularmente excitados, na esfera dos pensamentos, produzirão ondas muito longas ou de simples sustentação da individualidade, correspondendo à manutenção de calor. Se forem os elétrons mentais, nas órbitas dos átomos da mesma natureza, a causa da agitação, em estados menos comuns da mente, quais se iam os de atenção ou tensão pacífica, em virtude de reflexão ou oração natural, o campo dos pensamentos exprimir-se-á em ondas de comprimento médio ou de aquisição de experiência, por parte da alma, correspondendo à produção de luz interior. E se a excitação nasce dos diminutos núcleos atômicos, em situações extraordinárias da mente, quais sejam as emoções profundas, as dores indizíveis, as laboriosas e aturadas concentrações de força mental ou as súplicas aflitivas, o domínio dos pensamentos emitirá raios muito curtos ou de imenso poder transformador do campo espiritual, teoricamente semelhantes aos que se aproximam dos raios gama.
Assim considerando, a matéria mental, embora em aspectos fundamentalmente diversos, obedece a princípios idênticos àqueles que regem as associações atômicas, na esfera física, demonstrando a divina unidade de plano do Universo.

Indução mental

Recorrendo ao “campo” de Einstein, imaginemos a mente humana no lugar da chama em atividade. Assim como a intensidade de influência da chama diminui com a distância do núcleo de energias em combustão, demonstrando fração cada vez menor, sem nunca atingir a zero, a corrente mental se espraia, segundo o mesmo princípio, não obstante a diferença de condições.
Essa corrente de partículas mentais exterioriza-se de cada Espírito com qualidade de indução mental, tanto maior quanto mais amplos se lhe evidenciem as faculdades de concentração e o teor de persistência no rumo dos objetivos que demande.
Tanto quanto, no domínio da energia elétrica, a indução significa o processo através do qual um corpo que detenha propriedades eletromagnéticas pode transmiti-las a outro corpo sem contacto visível, no reino dos poderes mentais a indução exprime processo idêntico, porquanto a corrente mental é suscetível de reproduzir as suas próprias peculiaridades em outra corrente mental que se lhe sintonize. E tanto na eletricidade quanto no mentalismo, o fenômeno obedece à conjugação de ondas, enquanto perdure a sustentação do fluxo energético.
Compreendemos assim, perfeitamente, que a matéria mental é o instrumento sutil da vontade, atuando nas formações da matéria física, gerando as motivações de prazer ou desgosto, alegria ou dor, otimismo ou desespero, que não se reduzem efetivamente a abstrações, por representarem turbilhões de força em que a alma cria os seus próprios estados de mentação indutiva, atraindo para si mesma os agentes (por enquanto imponderáveis na Terra), de luz ou sombra, vitória ou derrota, infortúnio ou felicidade.

Formas-pensamentos

Pelos princípios mentais que influenciam em todas as direções, encontramos a telementação e a reflexão comandando todos os fenômenos de associação, desde o acasalamento dos insetos até a comunhão dos Espíritos Superiores, cujo sistema de aglutinação nos é, por agora, defeso ao conhecimento.
Emitindo uma idéia, passamos a refletir as que se lhe assemelham, idéia essa que para logo se corporifica, com intensidade correspondente à nossa insistência em sustentá-la, mantendo-nos, assim, espontaneamente em comunicação com todos os que nos esposem o modo de sentir.
É nessa projeção de forças, a determinarem o compulsório intercâmbio com todas as mentes encarnadas ou desencarnadas, que se nos movimenta o Espírito no mundo das formas-pensamentos, construções substanciais na esfera da alma, que nos liberam o passo ou no-lo escravizam, na pauta do bem ou do mal de nossa escolha. Isso acontece porque, à maneira do homem que constrói estradas para a sua própria expansão ou que talha algemas para si mesmo, a mente de cada um, pelas correntes de matéria mental que exterioriza, eleva-se a gradativa libertação no rumo dos planos superiores ou estaciona nos planos inferiores, como quem traça vasto labirinto aos próprios pés.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Elucidações Sobre Matéria e Energia (Palavras de Áureo)


III - ÁTRIOS DA PROTOCONSCIÊNCIA


Já sabemos que a energia é materializável e que a matéria é desintegrável em energia; que há evidentes semelhanças entre um fóton e um grão de matéria; que os grãos de matéria, em seu movimento, são acompanhados de ondas; que tanto a energia radiante, quanto a matéria, se constituem de associações de ondas e corpúsculos; que a evolução é irreversível; que, em todos os níveis e dimensões, o superior sempre se sobrepõe ao inferior; que a superioridade evolutiva implica maior complexidade estrutural e, portanto, mais aprimorada sensibilidade; que toda matéria tem o seu anverso antimaterial; que os diversos planos de uma mesma realidade se transfundem e se interam; que o nosso universo é apenas uma ilha no infinito dos Universos da Criação Divina; que mesmo em nosso pequeno Sistema Solar está nascendo um novo Sol; átomos não são coisas e que  o mundo é muito mais “um grande pensamento do que uma grande máquina”; que não há somente um espaço-tempo e que existem insuspeitadas dimensões além das nossas.
Poderíamos, portanto, seguir adiante, mas, antes disso, acabemos de vez com algum resto de ilusão dos que ainda acreditam em solidez da matéria. Demos a palavra ao Professor BOUTARIC, da Faculdade de Ciências de Dijon, para que ele fale, através de alguns trechos de seu livro “Matéria, Eletricidade e Energia”: - “A massa de um corpo, sendo apenas uma forma de energia, só permanece constante se o corpo não troca com o exterior nenhuma outra forma de energia, de modo que a lei da conservação da massa aparece apenas como um caso particular do principio da conservação da energia.
(...) Nenhum sólido tem uma massa absolutamente invariável; com um esforço suficiente, podemos sempre provocar nele uma deformação permanente, isto é, que subsiste após suprimida a ação mecânica que a engendrou. Sob pressões muito fortes, um metal escorre através de um estreito orifício, tomando a forma de verdadeiras gotas, como faria um líquido; tal operação é conhecida sob o nome de extrusão. (...) Não há nenhuma linha nítida de demarcação entre os diversos estados físicos dos corpos. (...) A era das discussões provocadas pela concepção descontinua da matéria parece definitivamente encerrada. (...) A matéria constituiria apenas uma forma particular da energia, amiúde chamada energia de massa. (...) Nas mais das vezes, a matéria e a energia apresentam-se intimamente associadas, sendo a matéria um veiculo e até um reservatório de energia. Entretanto, na energia radiante, todo suporte material desaparece. (...) O principio da conservação da energia não se aplica apenas aos fenômenos físicos, mas também às relações químicas, e seu domínio estende-se à Biologia, pois rege todas as transformações que ocorrem no interior dos seres vivos.”
Chama-se comumente de matéria a tudo o que tem volume e massa, compreendendo-se nessa definição os sólidos e os fluidos. Os sólidos caracterizam-se pela coesão de suas moléculas constitutivas, sempre maior do que as repulsões eventualmente existentes entre elas; pela disposição espacial regular de suas partículas; por sua forma própria e definida; por sua rigidez e elasticidade e por sua pequena compressibilidade. Isso, em termos, porque só o cristal tem rede regular, enquanto, em geral, a estrutura dos sólidos é policristalina, formada por cristalículos justapostos. E há também os sólidos vítreos, de estrutura não-cristalina. Já vimos que essas características dos sólidos são muito relativas e agora acrescentaremos que o fenômeno da coesão, que dá à matéria a consistência rígida que ela ostenta, decorre das forças de atração entre as moléculas, os átomos ou os íons que formam um corpo e tem origem eletromagnética. Chamam-se de fluidos os líquidos e os gases, estes últimos geralmente denominados fluidos elásticos, por sua grande compressibilidade. Há, porém, um tipo especial e superior de gás, o plasma, que se forma quando todos os átomos ou moléculas neutras, sob poderosa excitação elétrica, são transformados em pigmentos carregados de íons ou elétrons.
Notemos agora, para usar novamente palavras de BOUTARIC, que “estabelecendo uma lista de todas as substâncias, na ordem decrescente de suas resistências às deformações, passaremos, por graus insensíveis, dos corpos sólidos bem caracterizados aos líquidos mais móveis, sem que seja possível especificar, em nenhum momento, onde termina o estado sólido e onde começa o estado líquido, isto é, o ponto de separação entre os dois estados. Igualmente, se fizermos variar de forma conveniente a temperatura e a pressão, podemos levar uma substância, por uma sucessão de estados homogêneos e por graus insensíveis, de um estado em que ela apresenta propriedades atribuídas comumente aos gases, a outro em que possui as de um líquido”.
Assim, toda matéria, em qualquer de seus estados relativos, é apenas matéria, isto é, apenas energia condensada, ou, mais simplesmente, apenas energia, formada de moléculas, que se constituem de átomos - conjuntos eletricamente neutros, cuja carga elétrica negativa da nuvem eletrônica equivale à carga elétrica positiva do núcleo. Chegamos, desse modo, ao puro domínio da energia.
Até agora, a ciência humana terrestre parece não ter para a energia melhor definição do que esta: “a capacidade que possui um corpo, ou um sistema, de produzir trabalho”. Capacidade é noção demasiado vaga, que a rigor nada define. É que a natureza intrínseca da energia é ainda ignorada pelo homem. Um dia, porém, ele descobrirá que essa “capacidade” é a “secreção” mental por excelência; basicamente, a emanação primária de Deus Criador e, por extensão, a emanação de cada criatura; é a “matéria-prima substancial”, o “ar” dos Universos, a “água” do infinito oceano cósmico, o “éter primacial”. A Ciência a conhece pelas suas formas de manifestação e a chama de potencial, cinética, térmica, mecânica, luminosa, eletromagnética, gravitacional, atômica, sonora, de ativação, de dissociação, de ionização, de ligação, de permuta, de recuo, etc. Entretanto, nada sabe, por ora, da energia mental, do mesmo modo que também nós nada sabemos da Energia Divina.
Retomemos, porém, o fio da meada. Do mesmo modo como “não há nenhuma linha nítida de demarcação entre os diversos estados físicos dos corpos”, também não há nenhuma linha nítida de demarcação entre matéria e energia. Elas na verdade se associam, se continuam e são essencialmente uma só coisa, mas uma coisa que evolui, que se apura, que se torna capaz de conquistar uma primitiva dimensão espacial, adquirir movimento e, com o movimento, uma nova dimensão temporal. Como disse JEAN PERRIN referindo-se ao movimento browniano, “o repouso que parece caracterizar um fluido em equilíbrio não passa de uma ilusão, devida à imperfeição de nossos sentidos e corresponde de fato a um certo regime permanente de violenta agitação”. Essa agitação, já apreciável nos líquidos, atinge grandes proporções nos gases e um portentoso clímax nos plasmas, que, atingindo temperaturas altíssimas, da ordem de cem milhões de graus Celsius, só limem ser contidos por potentíssimos campos magnéticos.

(Áureo, Universo e Vida)

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Raboni, minha carta...



Uma pequena explicação antes do texto:

[Uma pequena poesia feita há algum tempo por mim. Quero compartilhar os sentimentos que me levaram a escrevê-la com vocês. Pois o clima de natal já está tocando aqueles corações mais sensíveis]


[...] aquele Mestre de Nazaré polariza igualmente as minhas esperanças. [...] Sinto a “rocha” milenária, luminosa e sublime, que nos sustenta o coração atolado no pântano de misérias seculares. [...] Jesus vê que no vaso imundo de meu espírito penetrou uma gota de seu amor desvelado e compassivo. [...] Ele ampara os meus pensamentos com a sua bondade sem limites. [...] como Bartolomeu, já possuo o bom ânimo para enfrentar os inimigos de minha paz, que se abrigam em mim mesmo. Tenho a alegria do Evangelho, porque reconheço que o seu amor não me desampara. Confiado nessa proteção amiga e generosa, meu Espírito trabalha e descansa. [...] existem Espíritos esclarecidos e Espíritos evangelizados, e eu, agora, peço a Deus que abençoe a minha esperança de pertencer ao número destes últimos. -Humberto de Campos-



Mestre,

Só agora percebo que Nasceste na estrebaria de meu ser
 meu coração Mestre, se Permitires, pode ser Tua manjedoura.

Há quantos milênios Esperas o meu despertar para que Viesses à luz em mim, e eu – em meus percalços – não Te percebia guiando meus passos e amparando este meu ser mendigo de amor e sabedoria.

Nos momentos das pequenas e das grandes quedas Estavas junto a mim.

Quanto me Esperaste Senhor.

Por vezes Te busquei, no entanto, a ignorância reveste-se em várias formas,
e eu não percebia que sempre Estiveste comigo;
quantas vezes Carregou-me nos braços, pois minha esperança havia se esvaído.

Hoje Senhor e Mestre, a minhalma se rejubila pelo Teu natal; e só hoje Senhor – neste segundo e nos que o seguem – descobri o Teu nascer para o mundo e para mim.

Deixa  eu me embevecer da Tua serenidade e do Teu amor para que meu ser se revigore e trabalhe, sem cessar,
a fim de lapidar o amor, a justiça e o saber neste orbe infectado de mazelas.

Perdoa-me Jesus, por fazer parte dessas lágrimas, que tantas vezes rolaram por Tua face ante os opróbrios humanos.

Permita-me, Cristo de Deus, levar sorriso aos Teus lábios;
hoje nasce um novo homem por Ti, para Ti e Contigo para ser o servidor;
o alferes da fraternidade junto aos homens.

Quero fazer parte daqueles anônimos que também lutaram e ainda, sem descanso, lutam pela edificação do Teu Reino na Terra.

Eis-me aqui Mestre Maior, ainda com máculas, ainda profano, mas rogo-Te:
Tens em mim o servo menor, Utiliza minhas possibilidades segundo Tua justa e soberana vontade.

(Diego  Alberto)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Mensagem aos Cristãos


Ó Cristãos do mundo inteiro, que tendes feito, em dezenove séculos de trabalho, pela realização, na Terra, do Reino dos Céus?
Ao lado da criação de uma civilização, da direção milenária dada ao pensamento humano, de obras colossais da arte, de uma multidão de mártires, gênios e santos, ao lado de todo bem que o Cristianismo tem trazido por força da divina centelha que o anima, quanto mal proveniente da fraqueza humana em cujo meio tem operado! Quanta resistência tendes oposto a esse divino impulso que anseia por elevar-nos! Quanta tenacidade vossa para permanecerdes substancialmente pagãos! Quantas tempestades não tem o homem desencadeado, com suas paixões, em torno da nave da Igreja de Roma!
A dura necessidade de comprimir o incoercível pensamento na forma, em regras disciplinares, e de cobrir a verdade resplandecente com um véu de mistério, foi imposto por vosso instinto de rebeldia, que de outro modo teria levado o princípio original a fragmentar-se no caos.
Algumas elevadas verdades que o Cristianismo contém não puderam exercer ação senão por motivo de imaturidade dos homens; certas liberdades não podem ser concedidas àqueles que estão sempre prontos a abusar de tudo. Que imenso esforço, que longo caminho deve percorrer a ideia divina até poder concretizar-se na Terra!
Nunca vos interrogastes que imensa força moral representaríeis no mundo se fôsseis verdadeiramente cristãos? Nunca a vós mesmos perguntastes que paraíso seria a Terra se houvésseis compreendido e praticado a Boa Nova do amor evangélico? Em vez disso, que triste espetáculo! A palavra de unidade subdividiu-se, o rebanho está desunido, os filhos de Cristo já não são irmãos, mas inimigos!
É chegada a hora de despertardes à luz de uma consciência maior. O tempo maturou o momento de grandes abalos, inclusive no campo do espírito. E no momento decisivo eu venho lançar no mundo a idéia decisiva. Venho reunir-vos todos, ó Cristãos do mundo, a fim de que, acima da forma que vos divide, vos aconchegueis em torno da figura de Cristo e encontreis de novo uma unidade substancial.
Isso vos digo em Seu nome, quando se completam dezenove séculos de Sua morte e a história se encaminha para o terceiro milênio. Digo-vos que deveis abraçar-vos novamente em face da ameaça do iminente momento histórico, a fim de que vossa união constitua uma barreira contra o mal, que se prepara para desencadear um tremendo ataque. As grandes lutas exigem grandes unificações.
Não toco em vossas divisões de forma, mas enfatizo a substância da idéia de Cristo, de que todas vossas crenças nasceram. Quero que se vivifique a fé, desfalecente em vossas almas; que se reanime a fé nas coisas eternas, já escritas com tanta simplicidade; que de novo viva o singelo espírito do Evangelho e vos tornem todos irmãos. É somente disso que o mundo precisa e essa é a solução para todas as crises. Não são necessários novos sistemas: é preciso que surja o homem novo.
Eu venho para unir, não para dividir; trago paz e não guerra. Não toco em vossas organizações humanas, mas vos digo: Amai-vos em nome do Cristo e vossas organizações se tornarão perfeitas.
Antes do início do novo milênio, todos os valores humanos sofrerão uma grande revisão e a fé se enriquecerá com a contribuição da razão e da ciência. Na iminência dos tempos, que toda a Cristandade volva seu olhar para o farol de Cristo.
Vinde, todos vós, ó homens que vos iludis pensando possuir uma verdade diferente. Deus é a verdade única, substancialmente idêntica em todas as religiões, na ciência como na fé.
Se os caminhos, as aproximações são diferentes, o princípio e a meta são a mesma idéia pura e simples do amor fraternal, idéia tanto dominante no Evangelho como no Universo. Os profetas afirmaram com variação de poder e aspectos o mesmo princípio.
A humanidade se encaminha para as grandes unidades políticas e espirituais. Que não surjam novas religiões e sim que as existentes se unifiquem numa fusão de fé que envolverá o mundo. O progresso se encontra no amor recíproco, que une, e nunca na rivalidade, que divide.

         Paz, união e amor sejam convosco na minha bênção.

(Escrita no XIX Centenário da Morte de Cristo)

Do livro "Grandes Mensagens" de Pietro Ubaldi

Se eu quiser falar com Deus

É uma pena ver como as pessoas estudam pouco, não conseguem perceber a beleza e profundidade dessa música. Vi tantos comentários absurdos sobre ela. Recomendo a todos que, ao  verem essa música, leiam as obras de Kardec, Pietro Ubaldi, Léon Denis, Camille Flammarion, Mestre Eckart, Plotino, Espinosa, Matin Buber, Agostinho de Hipona, Santo Anselmo, Boécio... há outros, mas esses julgo cruciais e dentre eles destaco: Espinosa e Pietro Ubaldi.
Se quisermos falar com Deus e encontrarmos aquilo que esperávamos, tenhamos certeza: Não Estaremos falando Com Deus.
Divido essa música com aqueles que visitam este blog, por que, em minha opinião, é a mais bela música que há. E essa interpretação de Elis Regina, a capela, a deixa ainda mais profunda e bela.  

Segue a letra da música e uma conversa (contida no álbum) com o próprio Gil sobre a letra.



Se eu quiser falar com deus
Gilberto Gil

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar


.......

"O Roberto me pediu uma canção; do que eu vou falar? Ele é tão religioso - e se eu quiser falar de Deus? E se eu quiser falar de falar com Deus?' Com esses pensamentos e inquirições feitas durante uma sesta, dei início a uma exaustiva enumeração: 'Se eu quiser falar com Deus, tenho que isso, que aquilo, que aquilo outro'. E saí. À noite voltei e organizei as frases em três estrofes.
"O que chegou a mim como tendo sido a reação dele, Roberto Carlos, foi que ele disse que aquela não era a idéia de Deus que ele tem. 'O Deus desconhecido'. Ali, a configuração não é a de um Deus nítido, com um perfil claro, definido. A canção (mais filosofal, nesse sentido, do que religiosa) não é necessariamente sobre um Deus, mas sobre a realidade última; o vazio de Deus: o vazio-Deus."
*
Esse nada-Deus - Num dos encontros com Gil para as entrevistas que resultariam nas edições de seus comentários aqui apresentadas, o coordenador deste livro lhe entregou, a pedido do editor, Luis Schwarcz, um exemplar de um livro chamado Uma História de Deus, escrito pela norte-americana Karen Armstrong. Na mesma noite Gil começou a lê-lo, e na tarde seguinte leu para este interlocutor uma longa passagem do mesmo que ele relacionou com o tema de Se Eu Quiser Falar com Deus, que, por coincidência, tinha sido objeto das conversas no dia anterior.
Parte do trecho dizia: "Sem dúvida, (Deus) parece estar desaparecendo da vida de um número crescente de pessoas, sobretudo na Europa Ocidental. Elas falam de um buraco em forma de Deus em suas consciências, onde antes Ele estava: onde antes havia Deus, hoje há um buraco em forma de Deus." Segundo o compositor, essas observações da autora imediatamente o fizeram pensar em Se Eu Quiser Falar com Deus. "Alguma coisa desse Deus-buraco parece estar contida na letra da canção", disse, querendo se referir especialmente ao trecho final da letra.
*
O pós possível - "A criação do efeito veio por impulso, instintivamente: a sequência de 'nadas' (treze no total) insinuando sucessivas camadas de buraco, criando a expectativa de algo e culminando com uma luz no fim (do túnel, da estrada, da vida), quer dizer, deixando entrever, embutida na morte, a possibilidade de realização de uma existência num plano diferente de tudo que se possa imaginar, mas que de qualquer maneira se imagina existir; a possibilidade de transmutação - com o desaparecimento do corpo físico, da entidade psíquica que chamamos de alma, inconsciente, eu - para outra coisa, outra forma de consciência de todo modo imprevisível, se não for mesmo nada." BRWMB9701575

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Judas Escariotes

19 de Abril de 1935


Silêncio augusto cai sobre a Cidade Santa. A antiga capital da Judéia parece dormir o seu sono de muitos séculos. Além descansa Getsêmani, onde o Divino Mestre chorou numa longa noite de agonia, acolá está o Gólgota sagrado e em cada coisa silenciosa há um traço da Paixão que as épocas guardarão para sempre. E, em meio de todo o cenário, como um veio cristalino de lágrimas, passa o Jordão silencioso, como se as suas águas mudas, buscando o Mar Morto, quisessem esconder das coisas tumultuosas dos homens os segredos insondáveis do Nazareno.
Foi assim, numa destas noites que vi Jerusalém, vivendo a sua eternidade de maldições.
Os espíritos podem vibrar em contacto direto com a história. Buscando uma relação íntima com a cidade dos profetas, procurava observar o passado vivo dos Lugares Santos. Parece que as mãos iconoclastas de Tito por ali passaram como executoras de um decreto irrevogável. Por toda a parte ainda persiste um sopro de destruição e desgraça. Legiões de duendes, embuçados nas suas vestimentas antigas, percorrem as ruínas sagradas e no meio das fatalidades que pesam sobre o empório morto dos judeus, não ouvem os homens os gemidos da humanidade invisível.
Nas margens caladas do Jordão, não longe talvez do lugar sagrado, onde Precursor batizou Jesus Cristo, divisei um homem sentado sobre uma pedra. De sua expressão fisionômica irradiava-se uma simpatia cativante.
- Sabe quem é este? – murmurou alguém aos meus ouvidos. – Este é Judas.
- Judas?!...
- Sim. Os espíritos apreciam, às vezes, não obstante o progresso que já alcançaram, volver atrás, visitando os sítios onde se engrandeceram ou prevaricaram, sentindo-se momentaneamente transportados aos tempos idos. Então mergulham o pensamento no passado, regressando ao presente, dispostos ao heroísmo necessário do futuro. Judas costuma vir à Terra, nos dias em que se comemora a Paixão de Nosso Senhor, meditando nos seus atos de antanho...
Aquela figura de homem magnetizava-me. Eu não estou ainda livre da curiosidade do repórter, mas entre as minhas maldades de pecador e a perfeição de Judas existia um abismo. O meu atrevimento, porém, e a santa humildade de seu coração, ligaram-se para que eu o atravessasse, procurando ouvi-lo.
- O senhor é, de fato, o ex-filho de Escariotes? – Sim, sou Judas – respondeu aquele homem triste, enxugando uma lágrima nas dobras de sua longa túnica. Como o Jeremias, das Lamentações, contemplo às vezes esta Jerusalém arruinada, meditando no juízo dos homens transitórios...
- É uma verdade tudo quanto reza o Novo Testamento com respeito à sua personalidade na tragédia da condenação de Jesus?
- Em parte... Os escribas que redigiram os evangelhos não atenderam às circunstâncias e às tricas políticas que acima dos meus atos predominaram na nefanda crucificação. Pôncio Pilatos e o tetrarca da Galiléia, além dos seus interesses individuais na questão, tinham ainda a seu cargo salvaguardar os interesses do Estado romano, empenhado em satisfazer as aspirações religiosas dos anciãos judeus. Sempre a mesma história. O Sanedrim desejava o reino do céu pelejando por Jeová, a ferro e fogo; Roma queria o reino da Terra.
Jesus estava entre essas forças antagônicas com a sua pureza imaculada. Ora, eu era um dos apaixonados pelas idéias socialistas do Mestre, porém o meu excessivo zelo pela doutrina me fez sacrificar o seu fundador. Acima dos corações, eu via a política, única arma com a qual poderia triunfar e Jesus não obteria nenhuma vitória. Com as suas teorias nunca poderia conquistar as rédeas do poder já que, no seu manto de pobre, se sentia possuído de um santo horror à propriedade. Planejei então uma revolta surda como se projeta hoje em dia na Terra a queda de um chefe de Estado. O Mestre passaria a um plano secundário e eu arranjaria colaboradores para uma obra vasta e enérgica como a que fez mais tarde Constantino Primeiro, o Grande, depois de vencer Maxêncio às portas de Roma, o que aliás apenas serviu para desvirtuar o Cristianismo. Entregando, pois, o Mestre, a Caifás, não julguei que as coisas atingissem um fim tão lamentável e, ralado de remorsos, presumi que o suicídio era a única maneira de me redimir aos seus olhos.
- E chegou a salvar-se pelo arrependimento?
- Não. Não consegui. O remorso é uma força preliminar para os trabalhos reparadores.
Depois da minha morte trágica submergi-me em séculos de sofrimento expiatório da minha falta. Sofri horrores nas perseguições infligidas em Roma aos adeptos da doutrina de Jesus e as minhas provas culminaram em uma fogueira inquisitorial, onde imitando o Mestre, fui traído, vendido e usurpado. Vítima da felonia e da traição deixei na Terra os derradeiros resquícios do meu crime, na Europa do século XV. Desde esse dia, em que me entreguei por amor do Cristo a todos os tormentos e infâmias que me aviltavam, com resignação e piedade pelos meus verdugos, fechei o ciclo das minhas dolorosas reencarnações na Terra, sentido na fronte o ósculo de perdão da minha própria consciência...
- E está hoje meditando nos dias que se foram... - pensei com tristeza.
- Sim... Estou recapitulando os fatos como se passaram. E agora, irmanado com Ele, que se acha no seu luminoso Reino das Alturas que ainda não é deste mundo, sinto nestas estradas o sinal de seus divinos passos. Vejo-O ainda na Cruz entregando a Deus o seu destino...
Sinto a clamorosa injustiça dos companheiros que O abandonaram inteiramente e me vem uma recordação carinhosa das poucas mulheres que O ampararam no doloroso transe... Em todas as homenagens a Ele prestadas, eu sou sempre a figura repugnante do traidor... Olho complacentemente os que me acusam sem refletir se podem atirar a primeira pedra... Sobre o meu nome pesa a maldição milenária, como sobre estes sítios cheios de miséria e de infortúnio. Pessoalmente, porém, estou saciado de justiça, porque já fui absolvido pela minha consciência no tribunal dos suplícios redentores.
Quanto ao Divino Mestre – continuou Judas com os seus prantos – infinita é a sua misericórdia e não só para comigo, porque se recebi trinta moedas, vendendo-O aos seus algozes, há muitos séculos Ele está sendo criminosamente vendido no mundo a grosso e a retalho, por todos os preços em todos os padrões do ouro amoedado...
- É verdade – concluí – e os novos negociadores do Cristo não se enforcam depois de vendê-lo.
Judas afastou-se tomando a direção do Santo Sepulcro e eu, confundido nas sombras invisíveis para o mundo, vi que no céu brilhavam algumas estrelas sobre as nuvens pardacentas e tristes, enquanto o Jordão rolava na sua quietude como um lençol de águas mortas, procurando um mar morto.


(Humberto de Campos / Chico Xavier. Crônicas de Além Túmulo)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Consciência e inconsciente


Consciência é consciência do eu. Pode-se afirmar que não há propriamente uma consciência, mas sim um campo de acesso pelo eu. Esse campo varia para cada indivíduo de acordo com suas capacidades evolutivas. Por outro lado o inconsciente seria a parte do ser humano não acessível ao eu, portanto fora do campo da consciência. Em conseqüência consciente e inconsciente se referem a um único todo.
A consciência, como o inconsciente, é uma espécie de filtro de entrada e saída de registros informacionais e de sentimentos. Não são campos reais, mas virtuais, pois não se tratam de entes materiais e estáticos. Contêm registros que se perderão ao longo da evolução do Espírito.
Não se situam no Espírito, mas nas ‘camadas’ superficiais e profundas do perispírito e são acessáveis por mecanismos sutis desenvolvidos nas experiências de contato com a matéria.
O termo inconsciente é incompleto e indefinido, pois pretende conceituar algo negando outro. É como querer descrever uma cadeira dizendo que ela não é uma mesa. O inconsciente é, no entanto, a expressão usual para designar a codificação transitória das experiências que o ser espiritual, encarnado ou desencarnado, vive na sua relação com o mundo. Ela pertence ao domínio perispiritual que se estrutura em redes conectadas por “nós” emocionais.
O termo inconsciente é, de certa forma, inapropriado para designar seu conteúdo, visto que se trata de uma negação de algo (in = não), portanto não define a si mesmo. Os conteúdos não são de fato conscientes. Mas para quem? Não são conscientes para o ego, mas o são para o Espírito. O que é chamado de inconsciente é tudo que se constitui das experiências e de seus resíduos já vividos e disponíveis ao Espírito.
Sobre o inconsciente Jung escreveu: “Assim definido, o inconsciente descreve um estado de coisas extremamente fluido: tudo o que sei, mas que no momento não estou pensando; tudo aquilo de que antes eu tinha consciência, mas de que agora me esqueci; tudo o que é percebido pelos meus sentidos, mas que não foi notado pela minha mente consciente; tudo aquilo que, involuntariamente e sem prestar a atenção, sinto, penso, recordo, quero e faço; todas as coisas futuras que estão tomando forma em mim e que em algum momento chegarão à consciência: tudo isto é o conteúdo do inconsciente.” Jung dizia também que “a consciência não se cria a si mesma; emana de profundezas desconhecidas.”
O ego, usando o campo da consciência, acessa-a por comparação. Nesse momento ele se torna dual. O inconsciente é uno, constituindo-se num todo dinâmico. O ego apenas acessa sua superfície, onde se encontram os eventos mais recentes. O inconsciente é uma instância com raízes no perispírito. A lógica que vigora no inconsciente é não-linear e é estruturada diversamente daquela que pertence à consciência. O paradigma no inconsciente é emocional, enquanto que na consciência é cognitivo. Tudo que é consciente se torna inconsciente. É uma tendência inata (funcional) ao automatismo dos processos inconscientes. A repetição de experiências induz ao automatismo. A consciência, por sua vez, é produto da evolução do Espírito que, nos primórdios de sua caminhada evolutiva, é “inconsciente pleno”, isto é, uma estrutura que vai aos poucos se diferenciando da totalidade inconsciente e formando conexões cada vez mais complexas.
O inconsciente por si só é neutro. Seu dinamismo é provocado pela energia psíquica mobilizada ininterruptamente pelo Espírito. Se a ele atribuirmos o caráter autônomo, como pensam alguns, teremos três centros de domínio da personalidade: o ego (na consciência), o inconsciente (se a ele atribuirmos autonomia) e o Espírito. Em verdade a autonomia do inconsciente, tanto quanto do ego, é relativa. O domínio real da personalidade pertence ao Espírito, mesmo nos estados em que não nos parece existir controle algum.
A consciência se ilumina quando o ego é tomado coercitivamente de assalto e assiste aos lampejos das inspirações inconscientes. Consciência e Vida se confundem. Nesse sentido o conceito de consciência se amplia, englobando a essência do ser que abrange desde a dimensão inconsciente ao ego.
O uso de alucinógenos, ervas, chás, estupefacientes, bem como certas medicações que atingem o Sistema Nervoso Central, reduzem o bloqueio provocado pelo córtex encefálico, permitindo uma maior manifestação das faixas psíquicas da mente que se encontram no perispírito. Esse procedimento permite a ampliação do campo da consciência que avança pelo inconsciente. Tal prática, se irresponsável gera conseqüências muitas vezes irreparáveis ao ego, que se vê confuso entre as duas instâncias psíquicas simultaneamente.
A atenção ou focalização na consciência de determinado aspecto da vida dependerá dos conteúdos presentes no inconsciente; isso ocorre independente da consciência poder discriminar os fatores ou os motivos da seleção. Essa focalização é um direcionamento da “energia” psíquica a um objeto específico.
O corpo físico proporciona um limite relativo, entre o inconsciente e o consciente, que impede a passagem de certos registros emocionais de uma instância à outra. Ao mesmo tempo em que impede que alguns registros carregados de afetos passem do inconsciente para a consciência, permite que importantes aquisições lógicas e habilidades concretas retornem. Mesmo quando desencarnamos, nem sempre temos acesso imediato àqueles registros. Há limites além do corpo físico, perispirituais, portanto, que impedem a lembrança imediata ou remota.

(Do Livro: Psicologia do Espírito, Adenáuer Novaes)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Sócrates


[Entrevista fantástica de Humberto de Campos. Grifos meus]

7 de janeiro de 1937

Foi no Instituto Celeste de Pitágoras (1) que vim encontrar, nestes últimos tempos, a figura veneranda de Sócrates, o ilustre filho de Sofronisco e Fenareta.
A reunião, nesse castelo luminoso dos planos erráticos, era, nesse dia, dedicada a todos os estudiosos vindos da Terra longínqua. A paisagem exterior, formada na base de substâncias imponderáveis para as ciências terrestres da atualidade recordava a antiga Hélade, cheia de aromas, sonoridades e melodias. Um solo de neblinas evanescentes evocava as terras suaves e encantadoras, onde as tribos jônias e eólias localizaram a sua habitação, organizando a pátria de Orfeu, cheia de deuses e de harmonias. Árvores bizarras e floridas enfeitavam o ambiente de surpresas cariciosas, lembrando os antigos bosques da Tessália, onde Pan se fazia ouvir com as cantilenas de sua flauta, protegendo os rebanhos junto das frondes vetustas, que eram as liras dos ventos brandos, cantando as melodias da Natureza.
O palácio consagrado a Pitágoras tinha aspecto de severa beleza, com suas colunas gregas à maneira das maravilhosas edificações da gloriosa Atenas do passado.
Lá dentro, agasalhava-se toda uma multidão de Espíritos ávidos da palavra esclarecida do grande mestre, que os cidadãos atenienses haviam condenado à morte, 399 anos antes de Jesus-Cristo.
Ali se reuniam vultos venerados pela filosofia e pela ciência de todas as épocas humanas, Terpandro, Tucídides, Lísis, Ésquines, Filolau, Timeu, Símias, Anaxágoras e muitas outras figuras respeitáveis da sabedoria dos homens.
Admirei-me, porém, de não encontrar ali nem os discípulos do sublime filósofo ateniense, nem os juízes que o condenaram à morte. A ausência de Platão, a esse conclave do Infinito, impressionava-me o pensamento, quando, na tribuna de claridades divinas, se materializou aos nossos olhos o vulto venerando da filosofia de todos os séculos. Da sua figura irradiava-se uma onda de luz levemente azulada, enchendo o recinto de vibração desconhecida, de paz suave e branda. Grandes madeixas de cabelos alvos de neve molduravam-lhe o semblante jovial e tranqüilo, onde os olhos brilhavam infinitamente cheios de serenidade, alegria e doçura.
As palavras de Sócrates contornaram as teses mais sublimes, porém, inacessíveis ao entendimento das criaturas atuais, tal a transcendência dos seus profundos raciocínios. À maneira das suas lições nas praças públicas de Atenas, falou-nos da mais avançada sabedoria espiritual, através de inquirições que nos conduziam ao âmago dos assuntos; discorreu sobre a liberdade dos seres nos planos divinos que constituem a sua atual morada e sobre os grandes conhecimentos que esperam a Humanidade terrestre no seu futuro espiritual.
É verdade que não posso transmitir aos meus companheiros terrenos a expressão exata dos seus ensinamentos, estribados na mais elevada das justiças, levando-se em conta a grandeza dos seus conceitos, incompreensíveis para as ideologias das pátrias no mundo atual, mas, ansioso de oferecer uma palavra do grande mestre do passado aos meus irmãos, não mais pelas vísceras do corpo e sim pelos laços afetivos da alma, atrevi-me a abordá-lo:
- Mestre - disse eu -, venho recentemente da Terra distante, para onde encontro possibilidade de mandar o vosso pensamento. Desejaríeis enviar para o mundo as vossas mensagens benevolentes e sábias?
- Seria inútil - respondeu-me bondosamente -, os homens da Terra ainda não se reconheceram a si mesmos. Ainda são cidadãos da pátria, sem serem irmãos entre si. Marcham uns contra os outros, ao som de músicas guerreiras e sob a proteção de estandartes que os desunem, aniquilando-lhes os mais nobres sentimentos de humanidade.
- Mas. . . - retorqui - lá no mundo há uma elite de filósofos que se sentiriam orgulhosos de vos ouvir! ...
- Mesmo entre eles as nossas verdades não seriam reconhecidas. Quase todos estão com o pensamento cristalizado no ataúde das escolas. Para todos os espíritos, o progresso reside na experiência. A História não vos fala do suicídio orgulhoso de Empédocles de Agrigento, nas lavas do Etna, para proporcionar aos seus contemporâneos a falsa impressão de sua ascensão para os céus? Quase todos os estudiosos da Terra são assim; o mal de todos é o enfatuado convencimento de sabedoria. Nossas lições valem somente como roteiro de coragem para cada um, nos grandes momentos da experiência individual, quase sempre difícil e dolorosa.
Não crucificaram, por lá, o Filho de Deus, que lhes oferecia a própria vida para que conhecessem e praticassem a Verdade? O pórtico da pitonisa de Delfos está cheio de atualidade para o mundo. Nosso projeto de difundir a felicidade na Terra só terá realização quando os Espíritos aí encarnados deixarem de serem cidadãos para serem homens conscientes de si mesmos. Os Estados e as Leis são invenções puramente humanas, justificáveis, em virtude da heterogeneidade com respeito à posição evolutiva das criaturas; mas, enquanto existirem, sobrará a certeza de que o homem não se descobriu a si mesmo, para viver a existência espontânea e feliz, em comunhão com as disposições divinas da natureza espiritual. A Humanidade está muito longe de compreender essa fraternidade no campo sociológico.
Impressionado com essas respostas, continuei a interrogá-lo:
- Apesar dos milênios decorridos, tendes a exprimir alguma reflexão aos homens, quanto à reparação do erro que cometeram, condenando-vos à morte?
- De modo algum. Méletos e outros acusadores estavam no papel que lhes competia, e a ação que provocaram contra mim nos tribunais atenienses só podia valorizar os princípios da filosofia do bem e da liberdade que as vozes do Alto me inspiravam, para que eu fosse um dos colaboradores na obra de quantos precederam, no Planeta, o pensamento e o exemplo vivo de Jesus-Cristo. Se me condenaram à morte, os meus juízes estavam igualmente condenados pela Natureza; e, até hoje, enquanto a criatura humana não se descobrir a si mesma, os seus destinos e obras serão patrimônios da dor e da morte.
- Poderíeis dizer algo sobre a obra dos vossos discípulos? .
- Perfeitamente - respondeu-me o sábio ilustre -, é de lamentar as observações malavisadas de Xenofonte, lamentando eu, igualmente, que Platão, não obstante a sua coragem e o seu heroísmo, não haja representado fielmente a minha palavra junto dos nossos contemporâneos e dos nossos pósteros. A História admirou na sua Apologia os discursos sábios e bem feitos, mas a minha palavra não entoaria ladainhas laudatórias aos políticos da época e nem se desviaria- para as afirmações dogmáticas no terreno metafísico. Vivi com a minha verdade para morrer com ela. Louvo, todavia, a Antístenes, que falou com mais imparcialidade a meu respeito, de minha personalidade que sempre se reconheceu insuficiente. Julgáveis então que me abalançasse, nos últimos instantes da vida, a recomendações no sentido de que se pagasse um galo a Esculápio? Semelhante expressão, a mim atribuída, constitui a mais incompreensível das ironias.
- Mestre, e o mundo? - indaguei.
- O mundo atual é a semente do mundo paradisíaco do futuro. Não tenhais pressa.
Mergulhando-me no labirinto da História, parece-me que as lutas de Atenas e Esparta, as glórias do Pártenon, os esplendores do século de Péricles, são acontecimentos de há poucos dias; entretanto, soldados espartanos e atenienses, censores, juízes, tribunais, monumentos políticos da cidade que foi minha pátria, estão hoje reduzidos a um punhado de cinzas!... A nossa única realidade é a vida do Espírito.
- Não vos tentaria alguma missão de amor na face do orbe terrestre, dentro dos grandes objetivos da regeneração humana?
- Nossa tarefa, para que os homens se persuadam com respeito à verdade, deve ser toda indireta. O homem terá de realizar-se interiormente pelo trabalho perseverante, sem o que todo o esforço dos mestres não Passará do terreno do puro verbalismo.
E, como se estivesse concentrado em si mesmo, o,grande filósofo sentenciou:
- As criaturas humanas ainda não estão preparadas para o amor e para a liberdade...
Durante muitos anos, ainda, todos os discípulos da Verdade terão de morrer muitas vezes!...
E enquanto o ilustre sábio ateniense se retirava do recinto, junto de Anaxágoras, dei por terminada a preciosa e rara entrevista.
                                              
(1)   Nome convencional para figurar os centros de grandes reuniões espirituais no plano Invisível. - O Autor Espiritual.

(Humberto de Campos / Chico Xavier, Crônicas de Além Túmulo)