Uma microscópica visão sobre o Espiritismo

A Doutrina Espírita não tem o caráter isolado de uma Religião, de uma Filosofia ou de uma Ciência, pois ela é, simultaneamente, essa tríade: Filosofia, Ciência e Religião. Se tirarmos um desses elementos da Doutrina dos Espíritos (como a chamava Léon Denis), já não há mais Espiritismo. E ela - é importante ressaltar - não é uma invenção do senhor Allan Kardec, pois tem a característica da impessoalidade. Ele foi o Codificador. Nas palavras dele:

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"Há entre o Espiritismo e outros sistemas filosóficos esta diferença capital; que estes são todos obra de homens, mais ou menos esclarecidos, ao passo que, naquele que me atribuís, eu não tenho o mérito da invenção de um só princípio.
Diz-se: a filosofia de Platão, de Descartes, de Leibnitz; nunca se poderá dizer: a doutrina de Allan Kardec; e isto, felizmente, pois que valor pode ter um nome em assunto de tamanha gravidade?
O Espiritismo tem auxiliares de maior preponderância, ao lado dos quais somos simples átomos." (Allan Kardec, O que é o Espiritismo)."
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Este blog visa contribuir com as reflexões sobre a Doutrina Espírita com textos meus e de autores que admiro. Não pretendo com isso exaltar minha personalidade, embora eu vá publicar aqui as datas de algumas palestras minhas (isto por conta de pedido de amigos), mas também de outros colaboradores do espiritismo e de eventos espíritas em Goiânia e fora daqui.
Aqueles que visitarem, sejam bem vindos!


"A maior caridade que podemos fazer pela doutrina espírita é sua divulgação." -Emmanuel-

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Joanna De Ângelis, livro Estudos Espíritas


Deus

Conceito
Toda e qualquer tentativa para elucidar a magna questão da divindade redunda sempre inócua, senão infrutífera, traduzindo esse desejo a vã presunção humana, na incessante faina de tudo definir e entender.
Acostumado ao imediatismo da vida física e suas manifestações, o homem ambiciona tudo submeter ao capricho da sua lógica débil, para reduzir à sua ínfima capacidade intelectual a estrutura causal do Universo, bem assim as fontes originárias do Criador.
Desde tempos imemoriais, a interpretação da divindade têm recebido os mais preciosos investimentos intelectivos que se possam imaginar. Originariamente confundido com a sua obra, [Deus] mereceu ser temido pelos povos primitivos que legaram às culturas posteriores a sedimentação supersticiosa das crendices em que fundamentavam o seu tributo de adoração, transitando mais tarde para a humanização da divindade mesma, eivada pelos sentimentos e paixões transferidos da própria mesquinhez do homem.
À medida, porém, que os conceitos éticos e filosóficos evoluíram, a compreensão da sua natureza igualmente experimentou consideráveis alterações. Desde a manifestação feroz à dimensão transcendental, o conceito do Ser Supremo recebeu de pensadores e escolas de pensamento as mais diversas proposições, justificando ou negando-lhe a realidade.
Insuficientes todos os arremedos filosóficos e culturais, quanto científicos, posteriormente, para uma perfeita elucidação do tema, concluiu-se pela legitimidade da sua existência, graças a quatro grupos de considerações, capazes de demonstrá-lo de forma irretorquível e definitiva, a saber:
a) cosmológicas, que o explicam como a Causa Única da sua própria causalidade, portanto real, sendo necessariamente possuidor das condições essenciais para preexistir antes da Criação e sobre-existir ao sem-fim dos tempos e do Universo;
b) ontológicas, que o apresentam perfeito em todos os seus atributos e na própria essência, explicando, por isso mesmo, a sua existência, que, não sendo real, não justificaria sequer a hipótese do conceito, deixando, então, de ser perfeito. Procederam tais argumentações desde Santo Anselmo, dos primeiros a formulá-las, enquanto as de ordem cosmológica foram aplicadas inicialmente por Aristóteles, que o considerava o “Primeiro motor, o motor não movido, o Ato puro”, consideração posteriormente reformulada por Santo Tomás de Aquino, que nela fundamentou a quase totalidade da teologia católica;
c) teleológicas, mediante as quais o pensamento humano, penetrando na estrutura e ordem do Universo, não encontra outra resposta além daquela que procede da existência de um Criador. Ante a harmonia cósmica e a beleza, quanto à grandeza matemática e estrutural das galáxias e da vida, uma resultante única surge: tal efeito procede de uma Causa perfeita e harmônica, sábia e infinita;
d) morais, defendidas por Immanuel Kant, inimigo acérrimo das demais, que, no entanto, eram apoiadas por Spinoza, Bossuet, Descartes e outros gênios da fé e da razão. Deus está presente no homem, mediante a sua responsabilidade moral e a sua própria liberdade, que lhe conferem títulos positivos e negativos, conforme o uso que delas faça, do que decorrem as linhas mestras do dever e da autoridade. Essa presença na inteligência humana, intuitiva, persistente, universal, faz que todos os homens de responsabilidade moral sejam conscientemente responsáveis, atestando assim, inequivocamente, a realidade de um Legislador Absoluto, Suprema Razão da Vida.
Olhai o firmamento e vede a obra das suas mãos, proclama o salmista Davi, no canto dezenove, verso primeiro, conduzindo a mente humana à interpretação teleológica, cosmológica e cosmogônica, para entender Deus.
Examina a estrutura de uma molécula e o seu finalismo, especialmente diante do ADN, do ARN de recente investigação pela Ciência, que somente pouco a pouco penetra na essência constitutiva da forma, na vida animal, e a própria indagação responde silogisticamente de maneira a conduzir o inquiridor à causa essencial de tudo: Deus!
Outros grupos de estudiosos classificam os múltiplos argumentos em ordens diferentes: metafísicos, morais, históricos e físicos, abrangendo toda a gama do existente e do concebível.

Desenvolvimento
Diversas escolas filosóficas do século passado desejaram padronizar as determinações divinas e a própria divindade em linhas de fácil assimilação, na pretensão de limitarem o ilimitado. Outras correntes de pesquisadores aferrados a cruento materialismo, na condição de herdeiros diretos do Atomismo greco-romano, do pretérito, descendentes, a seu turno, de Lord Bacon, como dos sensualistas e céticos dos séculos XVIII e XIX, zombando da fé ingênua e primitiva, escravizada nos dogmas ultramontanos dos religiosos do passado, tentaram aniquilar histórica e emocionalmente a existência de Deus, por incompatível com a razão, conforme apregoavam, mediante sistemas sofistas e conclusões científicas apressadas, como se a própria razão não fosse perfeitamente confluente com o sentimento de fé, inato em todo homem, como o demonstram os multifários períodos da História. Sócrates já nominava Deus como “A Razão Perfeita”, enquanto Platão o designava por “Ideia do Bem”.
O neoplatonismo, com Plotino, propôs o renascimento do Panteísmo, fazendo “Deus, o Uno Supremo”, que reviverá em Spinoza, não obstante algumas discussões na forma de Monismo, que supera na época o Dualismo cartesiano. O monismo recebia entusiástico apoio de Fichte, Hegel, Schelling e outros, enquanto larga faixa de pensadores e místicos religiosos empenhava-se na sobrevivência do Dualismo.
Mais de uma vez alardeou-se que “Deus havia morrido”, proclamando-se a desnecessidade da fé como da sua paternidade, para, imediatamente, reiteradas vezes, com a mesma precipitação, voltarem esses negadores a aceitar a sua realidade.
A personagem concebida por Nietzsche, que sai à rua difundindo haver “matado Deus”, chamando a atenção dos passantes, após o primeiro choque produzido nos círculos literários e intelectuais do mundo, no passado, estimulou outras mentes à negação sistemática. Fenômeno idêntico acontecera no século anterior, quando os convencionais franceses, supondo destruir Deus, expulsaram os religiosos de Paris e posteriormente de todo o país, entronizando a jovem Candeille, atormentada bailarina do Ópera, como a Deusa Razão, que deveria dirigir os destinos do pensamento intelectual de então, ante Robespierre e outros, em Notre-Dame. Logo, porém, depois de múltiplas vicissitudes, o curto período da Razão fez que Deus retornasse à França, e muitos dos seus opositores a Ele se renderam, declarando haver voltado ao seu regaço, cabisbaixos, arrependidos, melancólicos. Deus vencia, mais uma vez, a prosápia utopista da ignorância humana!
Repetida a experiência no último quartel do “século das luzes”, tornou a ser exilado da Filosofia e da Ciência por uns e reconduzido galhardamente por outros expoentes culturais da Humanidade.
Novamente, ante o passo avançado da tecnologia moderna, pela multiplicidade das ciências atuais, pretende-se um Cristianismo sem Deus, uma Teologia não teísta, fundamentada em cogitações apressadas, que pretendem levar o homem à “busca das suas origens”, como desejando reconduzi-lo à furna, em vez de situá-lo na Natureza, mantê-lo selvagem por incapacidade de fazê-lo sublime.
Tal fenômeno reflete a apressada decadência histórica e moral das velhas instituições, na Terra de hoje, inaugurando uma Nova Era...
As construções sociais e econômicas em falência, as arquiteturas religiosas em soçobro, as aferições dos valores psicológicos e psicotécnicos negativamente surpreendentes, o descrédito inspirado pelos dominadores, em si mesmos dominados, pelos vencedores lamentavelmente vencidos pela inferioridade das paixões em que se consomem, precipitaram o agoniado espírito humano na “busca do nada”, das formas primeiras, rompendo com tudo, como se fora possível abandonar a herança divina inata indistintamente em todas as criaturas, para tentar esquecer, apagar e confundir a inteligência com os impulsos dos instintos, num contumaz e malsinado esforço de contraditório retorno às experiências primitivistas da forma, quando ainda nas fases longevas de formações e reformações biodinâmicas...
Concomitantemente, porém, surgem figurações morais, espirituais, místicas e científicas, sofrendo os embates que a dúvida e o ceticismo impõem, resistindo, todavia, estoicamente, na afirmação da existência de Deus, apoiadas pela Filosofia e Ética espíritas, que são as novas matrizes da Religião do Amor, pregada e vivida por nosso Senhor Jesus Cristo.

Conclusão
“Deus é Amor”, afirmava João.
“Meu Pai”, dizia reiteradamente Jesus, conceituando-o da forma mais vigorosa e perfeita que se possa imaginar.
E Allan Kardec, mergulhando as nobres inquirições filosóficas nas fontes sublimes da Espiritualidade Superior, recolheu por meio dos Imortais que “Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”, em admirável síntese, das mais felizes, completando a argumentação com a asserção de que o homem deve estudar “as próprias imperfeições a fim de libertar-se delas, o que será mais útil do que pretender penetrar no que é impenetrável”, concordante com o ensino do Cristo, em João: “Deus é Espírito, e importa que os que o adoram, o adorem em espírito e verdade.”